
03/05/2008
Ano 11 - Número 579
ARQUIVO
ARLETE REIS
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Arlete Moreira Reis
Filhos, tê-los ou não?
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Após o casamento, todos começam a cobrar a vinda de um filho. Se casados há mais
de dois anos, quando encontrados a pergunta é: - quando vão encomendar o
herdeiro? – Uns, desejam primeiro ter seu carro, apartamento próprio, enfim, uma
vida organizada para dar ao filho certo conforto, acesso a todas as vacinas que
o governo não oferece e que são caríssimas nos consultórios particulares, mas
importantes para assegurar proteção à criança numa fase em que seu organismo tem
pouquíssimos anticorpos, levá-los a bons pediatras, etc.etc. Outros casais nada
planejam. Acontece uma gravidez indesejada por eles e pelas famílias, pois, sem
uma estrutura montada, os avós assumirão o sustento da prole e muitas vezes
também dos filhos e das noras.
Hoje, pais são figuras ausentes, as mães não tem compromisso com as crianças que
vivem largadas, sem orientação, nem cuidados. Elas querem freqüentar academia,
clube ou praia, não passam inspeção nos filhos, não lhes observam, ao menos, se
estão com as orelhas limpas e unhas cortadas. As mães hoje não querem perder
tempo com os filhos nas mais elementares tarefas que lhes compete. Acham que as
crianças com quatro, cinco anos, devem tomar banho sozinhas, etc., ser
independentes. Como disse um grande psiquiatra, são crianças abandonadas, não
independentes. Valores morais, educação para com as outras pessoas, para quê? -
elas também não têm.
Quando as crianças se recusam a comer, tomar banho, tomar o lanche e começam a
dizer “ não quero “ não quero”, a mãe ou o pai a agride, lhe dá pancada, lhe
aterroriza com ameaças das mais diversas.
É preciso ter paciência com as crianças. Aquele que não tem paciência nunca
deveria ter filhos. A criança não pode comer em vinte minutos, ela leva mais
tempo mastigando o alimento, ela se distrai com alguma coisa ao seu redor, e,
muitas vezes, quer chamar a atenção dos pais que não a tratam como criança,
fazendo birra na hora do almoço, na hora do banho. Esse comportamento é
explicado por qualquer psicólogo. Não há criança problemática se ela é tratada
com atenção, com carinho, com paciência. Se a criança bate na outra na escola,
se não quer fazer o que a professora manda, aí há algum problema sério dentro de
casa. Ou a mãe é carrasca, lhe bate e ameaça com gritos e palavras duras ou lhe
castiga injustamente. Injustamente, porque ela própria, com seu comportamento,
na maioria das vezes trazido no subconsciente por ter tido uma vida difícil com
seus pais, gerou nessa criança essa intolerância de partilhar momentos de paz na
hora do almoço, comendo sua refeição devagar, como deve ser, pois engolir a
comida sem mastigá-la pelo menos dez vezes, não fará bem a saúde.
Meio século atrás, a criança sentava-se à mesa com os pais para as refeições.
Era uma hora sagrada nas famílias, ninguém ameaçava a criança para comer
depressa, não fazia terrorismo com aquele: come, come, você ainda não acabou? -
Come tudo, senão você vai apanhar. Vou chamar seu pai, ou vou chamar sua mãe
para ver se você não vai comer !
Ora, isso é pura violência contra a criança. Ela não espera isso de seus pais.
Daí, fica insegura na escola, fica carente de atenção, se comporta como uma
criança de menor idade.
O quê a criança deseja com esse comportamento? – mudança de atitude de seus
pais. Se eles exercitarem a paciência, deixando-a lá comendo devagar, levando
quanto tempo seja necessário para tomar o alimento, em pouco tempo terão uma
grande surpresa. Não a pressionarão mais, ela comerá no tempo regular.
É também o despreparo total dos pais, que, vezes por outras, vieram de famílias
desestruturadas, violentas, desrespeitosas, geraram estes filhos que aí estão e
não sabem que rumo tomar em suas famílias. Mesmo tendo conforto sempre estão
insatisfeitos com a vida. Não sabem valorizar o que conquistaram ou o que
receberam com a formação dessa nova família. Insatisfeitos com eles próprios,
descarregam nos filhos suas frustrações.
A questão de ter filhos ou não veio à baila uma vez mais pelo farto noticiário
que envolve a relação de uma família, pai, mãe e madrasta. A violência causada à
menina Isabella, mostra bem o estigma que carregava essa menina. A mãe a
concebeu durante um namoro que pouco durou. Ao nascer o pai não quis
reconhecê-la como sendo sua filha, precisou do exame de DNA para a comprovação
da paternidade, resultando numa despesa a mais para o avô paterno, quem pagava a
pensão alimentícia. Crescida, freqüentava a nova família do pai, com dois filhos
pequenos. Nessas visitas a menina tornou-se um estorvo para a madrasta que tinha
ciúmes dela achando que o pai dava mais atenção a ela do que aos outros filhos
do casal.
A criança brasileira tem sofrido violência diuturnamente, pais e mães espancam
os filhos por não querer comer, tomar banho, por qualquer coisa que lhes tirem
do sério. Eles não deveriam ter filhos, não estão preparados para essa função.
As mães do chamado golpe da barriga, são as mais carrascas, elas não desejavam
ter filhos, mas para assegurarem certos benefícios futuros, resolveram tê-los.
Tendo-os, muitas delas não aceitaram nem amamentá-los e com o passar dos anos,
essas crianças foram jogadas nas mãos das empregadas, mesmo com a mãe em casa,
sem desempenhar qualquer função laborativa. Quando em conversa, sempre reclamam
das crianças, elas lhe dão “muito trabalho”. Desconhecem que ser mãe é se doar
totalmente, é chorar pelos filhos, é ensinar-lhes a rezar para Papai do Céu, é
ensinar-lhes a gostar das Vovós e dos Vovôs, é ensinar-lhes valores morais, é
repreendê-los com respeito, é ensinar-lhe a ser amoroso, educado com as pessoas,
ser amigo dos amiguinhos, dividir seu brinquedo, aceitar a derrota sem desespero
e vibrar alegre com as conquistas.
Se você achar que filho dá muito trabalho, se você não tem paciência, não os
tenha, brinque com os dos outros, serão apenas minutos alegres que você passará,
mas, se a criança fizer birra, você apenas virará as costas e sairá sem ser
percebida...
(03 de maio/2008)
CooJornal
no 579
Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa
arletemr@ig.com.br http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm
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