17/05/2008
Ano 11 - Número 581

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis


Afinal, o conheci

 

Há muito nos falávamos por telefone, pelo correio eletrônico, algumas vezes. Nos seus noventa e um anos esbanja alegria de viver e sempre muito antenado com tudo que está acontecendo à nossa volta. 

Fui à consulta rotineira com o Dr. Ronaldo Surrage e, perguntando pelo seu pai, Sr. Francisco, informou-me que ele viria ao Rio para passar alguns dias, colocando sua casa à disposição para que eu fosse visitá-lo. Assim, afinal nos conheceríamos..

Tudo acertado para a terça feira, dia 13 de maio. Saí de Maricá por volta das oito horas. Cheguei ao Rio pouco mais de uma hora e meia. Aproveitei para comprar algumas coisas no Saara, depois almocei uma gostosa sopinha no Onde canta o Sabiá, na rua da Assembléia.  Dali fui de metrô até a Estação Siqueira Campos onde peguei o ônibus supervia para a Barra.

A viagem de ônibus é muito agradável, contorna-se toda a orla marítima da zona sul. Um deslumbramento para quem é apaixonada pelo mar, como eu.  Deleitei-me admirando as ondas espreguiçando-se nas rochas, marulhando para alegrar a mãe natureza.

Chegando à Barra da Tijuca, perguntei como poderia chegar à Av. Sernambetiba. Informaram-me que aquele ônibus trafegava apenas pela Av.das Américas, eu teria de saltar ali e pegar um táxi, única condução para passar para o lado da praia.

Saltei na estação Parque das Rosas e avistando um táxi, acenei. Embarquei e, transcorridos alguns minutos, percebi que estávamos dando voltas sem chegar a lugar algum. Indaguei ao taxista se conhecia o caminho, se trabalhava naquela área. Respondeu que não.  Achei melhor perguntarmos num posto de gasolina, já que ele havia errado o caminho que o rapaz da carrocinha nos ensinou.

Bom, tivemos que voltar todo o trajeto já percorrido e, finalmente, chegamos ao destino, sem antes, o taxista errar novamente, entrando no estacionamento de um condomínio.  Alertado pelos seguranças, deu para sair e seguir em frente até encontrar o número procurado.   Não precisa dizer que paguei um preço alto pelas voltinhas. Fazer o quê?

Depois de toda essa odisséia, finalmente conheceria o Sr. Francisco, meu amigo de Cachoeiro de Itapemirim.  A acompanhante dele, enfermeira Edna, que eu já conhecia do consultório médico, veio encontrar-me no hall e subimos juntas para o décimo primeiro andar.

Quando entrei no espaçoso apartamento, encontrei um bonito cenário. A praia era vista de qualquer ângulo que você se encontrasse e naquele dia o mar parecia me presentear com a sua beleza. A praia estava linda, a areia reluzia com os raios de sol projetados nela. Que cenário maravilhoso! Os espíritos de luz estavam ali presentes naquela sala, alegrando-nos com aquele encontro, mas nada do Sr. Francisco. Brincando, perguntei: - cadê o homem?  Um minuto depois, lá vem ele todo sorridente, dizendo: - que encontro difícil!   Nos demos um caloroso abraço e sorrimos muito.

Foi muito bom conhecer o Sr. Francisco e poder lhe dar um beijo de filha para pai. Um gostoso cafezinho me foi servido, conversamos sobre assuntos diversos e não me deixaram sair sem provar o gostoso lanche preparado pela amiga Edna que ele faz questão que o acompanhe quando vem ao Rio.

Quando me preparava para a despedida, Sr. Francisco mostrou o desejo de recitar, em prosa, um artigo sobre o mar morto. Eu estava ali para ouvi-lo. Com que emoção recitou, como também explicou-me o sentido daquelas palavras.  Finalizando, ofereceu-me uma folha de papel dizendo que a escreveu para mim. Dizia:

                                   Doçuras da vida  -  Francisco Surrage Sobrinho.

A vida é sempre doce porque ela tem um grandioso aliado, o Tempo, não permitindo que um coração avassalado pelo sofrimento se entregue à tristeza. Quando isto acontece ele, o tempo, chega devagar e transforma a tristeza em saudade.
Repito: - a vida é sempre doce. O homem, em sua maioria, a vê com olhos pessimistas. Jesus, o maior educador, apesar de permanecer em nosso Planeta por apenas 33 anos, deixou-nos lições excelentes:

“São os teus olhos a lâmpada do teu corpo. Se os teus olhos forem bons,    todo o teu corpo será luminoso, mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas. Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas”
(Lucas 11:34-35).

Há a doçura de um despertar feliz pela noite bem dormida, pelos sonhos agradáveis e lições que recebera. Há alegria do sol radiante aquecendo toda a terra e também o nosso coração, e no campo produzindo alimentos para os homens e animais.

Há a doçura do chocolate no Dia da Páscoa e a doçura de ler um bom livro. A doçura que se sente ao decifrar uma difícil  Palavra Cruzada.

São tantas as doçuras! Haja açúcar para tantas.....


Depois de todos esses momentos agradáveis que passei com meu amigo Francisco Surrage e Edna, sua enfermeira, que gentilmente levou-me até o ponto do ônibus, me despedi, já com saudade do Sr. Francisco, sábio por suas vivências, grande pessoa em luz e espírito, grande coração.



(17 de maio/2008)
CooJornal no 581


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm