Há muito nos falávamos por telefone, pelo correio
eletrônico, algumas vezes. Nos seus noventa e um anos esbanja alegria de viver
e sempre muito antenado com tudo que está acontecendo à nossa volta.
Fui à consulta rotineira com o Dr. Ronaldo
Surrage e, perguntando pelo seu pai, Sr. Francisco, informou-me que ele viria
ao Rio para passar alguns dias, colocando sua casa à disposição para que eu
fosse visitá-lo. Assim, afinal nos conheceríamos..
Tudo acertado para a terça feira, dia 13 de maio.
Saí de Maricá por volta das oito horas. Cheguei ao Rio pouco mais de uma hora
e meia. Aproveitei para comprar algumas coisas no Saara, depois almocei uma
gostosa sopinha no Onde canta o Sabiá, na rua da Assembléia. Dali fui de
metrô até a Estação Siqueira Campos onde peguei o ônibus supervia para a
Barra.
A viagem de ônibus é muito agradável, contorna-se
toda a orla marítima da zona sul. Um deslumbramento para quem é apaixonada
pelo mar, como eu. Deleitei-me admirando as ondas espreguiçando-se nas
rochas, marulhando para alegrar a mãe natureza.
Chegando à Barra da Tijuca,
perguntei como poderia chegar à Av. Sernambetiba. Informaram-me que aquele
ônibus trafegava apenas pela Av.das Américas, eu teria de saltar ali e pegar
um táxi, única condução para passar para o lado da praia.
Saltei
na estação Parque das Rosas e avistando um táxi, acenei. Embarquei e,
transcorridos alguns minutos, percebi que estávamos dando voltas sem chegar a
lugar algum. Indaguei ao taxista se conhecia o caminho, se trabalhava naquela
área. Respondeu que não. Achei melhor perguntarmos num posto de gasolina, já
que ele havia errado o caminho que o rapaz da carrocinha nos ensinou.
Bom, tivemos que voltar todo o trajeto já
percorrido e, finalmente, chegamos ao destino, sem antes, o taxista errar
novamente, entrando no estacionamento de um condomínio. Alertado pelos
seguranças, deu para sair e seguir em frente até encontrar o número
procurado. Não precisa dizer que paguei um preço alto pelas voltinhas. Fazer
o quê?
Depois de toda essa odisséia, finalmente
conheceria o Sr. Francisco, meu amigo de Cachoeiro de Itapemirim. A
acompanhante dele, enfermeira Edna, que eu já conhecia do consultório médico,
veio encontrar-me no hall e subimos juntas para o décimo primeiro andar.
Quando entrei no espaçoso apartamento, encontrei
um bonito cenário. A praia era vista de qualquer ângulo que você se
encontrasse e naquele dia o mar parecia me presentear com a sua beleza. A
praia estava linda, a areia reluzia com os raios de sol projetados nela. Que
cenário maravilhoso! Os espíritos de luz estavam ali presentes naquela sala,
alegrando-nos com aquele encontro, mas nada do Sr. Francisco. Brincando,
perguntei: - cadê o homem? Um minuto depois, lá vem ele todo sorridente,
dizendo: - que encontro difícil! Nos demos um caloroso abraço e sorrimos
muito.
Foi muito bom conhecer o Sr. Francisco e poder lhe
dar um beijo de filha para pai. Um gostoso cafezinho me foi servido,
conversamos sobre assuntos diversos e não me deixaram sair sem provar o
gostoso lanche preparado pela amiga Edna que ele faz questão que o acompanhe
quando vem ao Rio.
Quando me preparava para a despedida, Sr.
Francisco mostrou o desejo de recitar, em prosa, um artigo sobre o mar morto.
Eu estava ali para ouvi-lo. Com que emoção recitou, como também explicou-me o
sentido daquelas palavras. Finalizando, ofereceu-me uma folha de papel
dizendo que a escreveu para mim. Dizia:
Doçuras da
vida - Francisco Surrage Sobrinho.
A vida é sempre doce porque ela tem um grandioso
aliado, o Tempo, não permitindo que um coração avassalado pelo sofrimento se
entregue à tristeza. Quando isto acontece ele, o tempo, chega devagar e
transforma a tristeza em saudade.
Repito: - a vida é sempre doce. O homem, em sua maioria, a vê com olhos
pessimistas. Jesus, o maior educador, apesar de permanecer em nosso Planeta
por apenas 33 anos, deixou-nos lições excelentes:
“São os teus olhos
a lâmpada do teu corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo
será luminoso, mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas. Repara, pois,
que a luz que há em ti não sejam trevas”
(Lucas 11:34-35).
Há a doçura de um despertar feliz pela noite bem
dormida, pelos sonhos agradáveis e lições que recebera. Há alegria do sol
radiante aquecendo toda a terra e também o nosso coração, e no campo
produzindo alimentos para os homens e animais.
Há a doçura do chocolate no Dia da Páscoa e a
doçura de ler um bom livro. A doçura que se sente ao decifrar uma difícil
Palavra Cruzada.
São tantas as doçuras! Haja açúcar para
tantas.....
Depois de todos esses momentos agradáveis que
passei com meu amigo Francisco Surrage e Edna, sua enfermeira, que gentilmente
levou-me até o ponto do ônibus, me despedi, já com saudade do Sr. Francisco,
sábio por suas vivências, grande pessoa em luz e espírito, grande coração.
(17 de maio/2008)
CooJornal
no 581