29/08/2008
Ano 12 - Número 596

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis


Doces Lembranças

 

Chove bastante. O vento frio passa pela fresta da janela. Estou triste, muito triste. Lembro-me com muita saudade dos tempos em que juntamente com meu irmão curtíamos o jazz e nosso ídolo era Nat King Cole com seu vozeirão e o sorriso inconfundível.

A vida nos prega muitas peças... Formávamos uma dupla imbatível nas brincadeiras, no gosto pelo esporte, nos passeios dominicais indo ao Cineac Trianon assistir ao Gordo e o Magro, Grande Otelo e Oscarito com suas chanchadas musicais alegres e que muito nos divertiam.

O tempo passou tão depressa, chegamos à fase adulta, cada um labutando para criar a família, superar os desafios e matar um leão a cada dia neste Brasil brasileiro, onde o trabalhador está sempre correndo atrás do prejuízo.

Víamo-nos esporadicamente, não havia tempo para recordarmos a infância tão gostosa que passamos juntos, as brincadeiras inventadas e que nos dava tanto prazer, as surras que de vez em quando levávamos por não obedecer a disciplina rigorosa que papai nos impunha, tais como, não andar descalço, não conversar enquanto comia e tantas outras que hoje seriam consideradas bobagens.

Meu querido irmão herdou de papai o Glaucoma e depois de muito lutar, foi vencido por essa doença sorrateira que lhe tirou a visão. Apaixonado por música, não se entregou, sua maior alegria é ouvir Jazz, boleros, tangos, Pixinguinha, Valdir de Azevedo, Jacob do Bandolim, sentado no sofá vermelho, seu lugar cativo na sala.
A cegueira não conseguiu tirar-lhe o ânimo pela vida. Estava feliz com a aposentadoria, veio me visitar e passamos uma semana prazerosa. Num determinado momento, verifiquei que suas pernas estavam muito inchadas, os pés, também. Não sentia nada. Pedi que fosse ao médico verificar tão grande inchaço.

Chegando ao Rio, imediatamente procurou o médico. Levou algum tempo para o diagnóstico, precisava fazer muitos exames e uma ressonância. Um mês depois vem o resultado, Hepatite C. O mundo desabou sobre nossas cabeças, o fígado estava afetado seriamente e a barriga rapidamente apresentou enorme volume: cirrose.

Daí pra frente, só muita dor e tristeza. Os remédios ministrados apresentaram efeitos colaterais desastrosos, o quadro agravando-se a cada dia, internação de emergência e toda a família inconformada pelo sofrimento de um ente querido desenganado pelos médicos que dizem nem transplante poderá ser feito.

Ver um ente querido definhando a cada dia é muito doloroso. Sempre fomos dois irmãos muito amigos, nunca nos desentendemos. As recordações de nossa infância e juventude me deixam muito saudosa e o coração chora pelas doces lembranças do que vivemos e pela amargura que a vida nos impôs.



(29 de agosto/2008)
CooJornal no 596


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm

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