03/10/2008
Ano 12 - Número 601

ARQUIVO
ARLETE REIS

 
Arlete Moreira Reis


OLHEI O CÉU

 

Chovia muito, muito, muito. O coração aos pedaços. Os olhos cansados de chorar. Ali, inerte, parecia dormir, coberto de rosas brancas, jazia na capela, rodeado da família. Ao chegar à administração não vi ninguém, mas, alguém todo de branco me pergunta baixinho: - a senhora é católica? - Sou o bispo José, professor da PUC. Gostaria de passar uma mensagem à família e encomendar o corpo, a senhora me autoriza? Dedico as tardes de segunda-feira a fazer esse trabalho junto às famílias enlutadas, esta é a minha missão. Qualquer que fosse a religião autorizaria, uma vez que palavras de apoio e conforto espiritual nessa hora nos fazem muito bem.
O bispo chegou à capela, cumprimentou a todos e começou a proferir uma mensagem diferente de todas que até hoje assisti nestes momentos de tristeza. Levou-nos a presença de Deus de uma forma tão sutil, tão ecumênica e ao mesmo tempo nos trazia à realidade da vida, chamando nossa atenção para fatos que ocorrem no dia-a-dia de todos nós mortais.

Dizia ele: - Não devemos ter medo dos mortos, eles não podem nos fazer mal algum. Devemos ter medo dos vivos, daqueles que sorriem para nós e ao mesmo tempo nos apunhalam pelas costas. Muitas pessoas dizem que não gostam de ir ao cemitério, perdem a oportunidade de ver e sentir que aqui todos se igualam, não há ninguém mais importante do que o outro, não há pobres nem ricos, todos são cadáveres. Já ouvimos alguém dizer: ah! aquele sujeito não valia nada, que a terra lhe seja pesada. Não podemos agir assim, devemos ter piedade daqueles que terminam aqui o seu tempo, porque, até o último instante de suas vidas, eles poderão se arrepender, e certamente o fazem sem que percebamos, e assim, terão o reino de Deus. Não podemos jamais ter esse sentimento para com outro irmão, mesmo que tenha tido uma caminhada tortuosa, porque quando chegar a sua hora, ele terá sido perdoado. Que todos os corações aqui presentes, acreditem que nosso irmão já subiu aos céus e que ao olharmos para o firmamento, encontraremos brilhando para nós no formato de uma estrela, este espírito que se foi, deixando aqui para enterrarmos, só a matéria.

Abatida voltei para casa pensando nas palavras daquele Bispo que apareceu do nada e de repente tocou a todos profundamente. No outro dia o sol brilhava, entardeceu, chegou a noite. Fui ao jardim e olhei para o céu. Dentre tantas estrelas, uma nova se destacava piscando para mim com muita intensidade. Lembrei-me do Bispo, meu irmão estava lá.



(03 de outubro/2008)
CooJornal no 601


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm

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