11/04/2009
Ano 12 - Número 627

ARQUIVO
ARLETE REIS

 

Arlete Moreira dos Reis


Comportamento entre pais e filhos
 

Por que será que crianças e jovens nascidos em lares pobres, valorizam tanto seus pais? Observem quando algumas delas são entrevistadas por terem conseguido algum feito ou se destacado em alguma modalidade esportiva, a voz é uma só: - quero ajudar minha mãe, dar uma casa aos meus pais, ajudar minha família. Alguns fazem questão de se deixarem fotografar ao lado de suas mães, orgulhosas dos filhos.

Na vivência do dia-a-dia, ouço pais e mães da classe média reclamarem dos filhos, enfatizando que a eles não falta nada e não compreendem porque estão sempre causando problemas. Tem tudo que desejam, é só apontar para a propaganda na televisão que logo irão receber o brinquedo, o computador, o vídeo game, mas, mesmo assim, não ficam satisfeitos, quando não desrespeitam o professor, desobedecem sistematicamente os pais e não são tolerados pelos amiguinhos, sempre aprontando algo.

Observo muito o relacionamento dos pais com seus filhos, porque minha infância foi cheia de amor, de abraços, de castigos, de beijos, de disciplina, de não dormir antes de ouvir as histórias que papai me contava. Nas famílias pobres, as mães estão sempre agarradas com seus filhos. É um cheiro, é um dengo, é também castigo e muitas palmadas quando não obedecem. Aprendem desde cedo a amar e também respeitá-las. Poucas vezes recebem um brinquedo comprado na loja, assim, improvisam as brincadeiras e curtem a infância usando a imaginação criando seus próprios brinquedos, como telefones com latas vazias de leite condensado, bichinhos com palitos e jiló, riscam o chão com pedaços de madeira e vão pular amarelinha.

Os pais dizem aos filhos que não podem comprar o presente que ele deseja, fica tudo bem, natural, entendem e ninguém é revoltado. Fazem peraltices como toda a criança, mas os acho mais inocentes. Não são envolvidos pela competição de quem tem o tênis de marca, quem tem dezenas de brinquedos, quem tem o carro mais luxuoso, quem vai para a Disney nas férias. Cuidado, os valores estão invertidos!

Parece estranho pensar que as crianças dão importância a isso. Infelizmente, os comentários dos pais dentro de casa, a competição das mães entre amigas, o papo no clube, salão de beleza, levam essas diferenças para suas cabecinhas . Recebi em casa conhecidos com os filhos adolescentes. Falamos de vários assuntos e dos shoppings também. A mãe ao citar as promoções de um grande shopping da zona norte, logo foi repelida pela filha – você vai àquele shopping de pobre? Eu só frequento shoppings da Barra. Ponderei que todos os shoppings tem as mesmas lojas. Ela não se deu por vencida, dizendo que as pessoas que lá iam eram feias, mal arrumadas. Totalmente preconceituosa.

Por sua vez, pais e mães imbuídos nessa atmosfera global de consumo, de competição , de ganhar dinheiro, trabalham, trabalham, com a meta de alcançarem status. Então, jogam os filhos com a empregada, não querem saber o que se passa na sua ausência, como foi o dia das crianças, acham que a escola é a única responsável pela educação do filho. Não há tempo, não podem perder alguns minutos com afagos, querem já tomar uma ducha e assistir ao noticiário; nesse ínterim, o filho já dormiu e eles não lhe deram nem boa-noite, que dirá um beijo.

Muitas mães não se dão conta de sua responsabilidade na formação do caráter deles. Acham que quartos bem mobiliados e decorados, os muitos brinquedos, preenchem o coração dos filhos. Não percebem que se sentem isolados e desejam muito que sua mãe participe de suas brincadeiras, de suas fantasias.Passe para eles o que aprendeu em criança.

Ensiná-los desde pequenos os conceitos de boa educação, atitudes sociais, interação com a família, participar de suas brincadeiras, conhecer seus amiguinhos e os pais deles, visitar a escola, conversar com o professor, saber como está indo seu filho é primordial. Detectados problemas, pedir ajuda a um psicólogo, conversar com o filho, demonstrar seu carinho, seu amor.

Conversando com uma criança de seis anos, perguntei a ela se brincava com sua mãe, com um olhar triste me disse: mamãe não brinca comigo, ela diz que não tem tempo, só o papai brinca comigo. A carência afetiva da criança com a mãe é coisa muito séria. Ela pode desencadear uma série de problemas destrutivos que passarão pela adolescência e chegará a vida adulta.

O acompanhamento dos filhos deve começar desde o berço. Quando a mãe lhe oferece o seio, além de protegê-lo na saúde, sua pele e seu cheiro transmitem ao nascituro segurança, sentimentos. Quando maiores, dar carinho, atenção, perder alguns minutos com eles, mesmo estando muito cansada, é um sacrifício que valerá a pena. Outra coisa importantíssima, os pais não fazem ideia, é não dizer para os filhos - você é um burro, não é capaz de fazer nada direito! Você é indesejável, ninguém quer brincar com você, porque você sempre apronta!. Mesmo com muita raiva, pelo amor de Deus, não digam essas palavras para as crianças, nem adolescentes. Elas ficam gravadas no subconsciente e terão sua auto-estima afetada. Em situações difíceis lembrarão delas e não serão capazes de superar obstáculos sentindo-se inferiorizados perante os outros, então, aprontam mais ainda para chamar a atenção sobre si.

Os pais são as âncoras dos filhos. Devem estimulá-los sempre. Fazê-los acreditar que são capazes de tornar-se um bom aluno sem precisar tirar nota máxima e para isso deverão respeitar seus professores, fazer os deveres de casa e estudar a matéria. Não podem levantar âncoras e deixá-los à deriva.

Quando há chamada na escola para conversar com professores a respeito da conduta de seu filho, não fique desesperado, não é o fim do mundo. Chegando em casa, far-se-á necessário sentar com a criança, com o adolescente e conversar sem agressões. Ter cuidados para não agravar a situação. Palavras ofensivas não ajudarão em nada. É procurar entender o que se passa com eles. É ficar alerta, estar mais perto e, se adolescentes, vigiar, discretamente, quando estão navegando na Internet.

Se vocês forem mães e pais presentes, conseguirão vencer a tempestade, se forem ausentes, procurem mudar e estreitar laços mais apertados com seus filhos, talvez consigam passar por nuvens tão densas.

Num seminário, um psicólogo de renome internacional, disse uma frase que nunca esqueci: - com raríssimas exceções, os filhos são o retrato dos pais. Se os pais não tiverem passado a eles valores familiares, morais e sociais, seus filhos também não os terão. Jamais poderão culpá-los pelo o que se tornarem, e a sociedade ficará pior a cada século. Pensem nisso.



(11 de abril/2009)
CooJornal no 627


Arlete Moreira dos Reis
advogada, escritora e poetisa 
arletemr@ig.com.br
 

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-020.htm

Direitos Reservados