09/07/2005
Número - 428

 

 

Artur da Távola



IPANEMA, ANOS 40

Meu pai queria morar em Campo Grande à época, zona rural, porque ele era engenheiro agrônomo. Minha mãe insistiu para morar em Ipanema, por ter a intuição de ser um bairro com futuro. E assim meus pais, ele funcionário público, se mudaram em 1936, quando nasci,para uma vila de quatro casas à rua Visconde de Pirajá, Nº 172, entre a Teixeira de Melo e a Farme de Amoedo.   Vivi até os 21 anos nessa vila que era o epicentro de meu universo. De lá eu soltei pipa muitas vezes; e também, da praia. Lá abri os olhos para a vida.

Embora adorasse ler e ouvir rádio eu já estava ficando meio moleque, e me lembro de ir tascar balão... Na época das festas de São João, caía muito balão em Ipanema. E a garotada saia feita louca: "tasca, tasca, tasca!". Nessa época havia festa de São João nos colégios e quermesse da Igreja Nossa Senhora da Paz na praça homônima e defronte que ficava cheia de barraquinhas. Eu já olhava para as meninas. Sentia uma coisa estranha que não identificava mas emocionava.

Perto da minha casa e ao lado do Colégio Fontainha onde fiz o primário havia um bar que se chamava Renania, e depois veio a ser o famoso Jangadeiros A esse tempo mudou de nome por causa da guerra. O bar era de um alemão, que tinha uma filha linda, chamada Cristina que foi minha colega de turma no Colégio Fontainha e depois no Andrews.  Eram: ela e uma turquinha no mesmo quarteirão que depois sumiu, O antecessor do Jangadeiros era  um bar mais para chopp... No balcão podíamos comprar queijo, arenque marinado, patês, pão preto, comida alemã, que à época era uma exceção. Meu pai gostava dessas comidas alemãs e costumava trazer para casa, inclusive um queijo fedorento e saborosíssimo chamado Linburgo.

Não existia supermercado., nem se falava nisso, era armazém. Perto de onde eu vivia a Casa Osório – onde se comprava arroz, feijão, batata, carne seca e se botava “na conta”, um caderninho que permitia a cobrança mensal. Tudo era em confiança. Quase ao lado de nossa casa ficava a Padaria Brasil do “Seu Abel”, e, quase ao lado, dela. uma confeitaria elegante a Confeitaria Pirajá, que era, por sua vez, uma filial da famosa Casa Heim, uma espécie de Lidador da época. Tudo perto. E havia a  Farmácia Pirajá, cujo dono era um camarada grandão chamado seu Paixão. Perto também havia uma loja de brinquedos, a única do bairro, chamada Casa Umary. Eu e um amigo, o Ronaldo Ferreira Gomes, quando chegava a época do Natal, nós com 12 para 13 anos íamos “ajudar” na casa Umary e depois o dono nos “pagava” com um bom presente da loja. O pai desse meu amigo havia sido jogador do Flamengo  o Vadinho, mas o nome dele era “Seu Osvaldo”. Para mim era um acontecimento conhecer e ser conhecido por um jogador de futebol. Era uma honra insuperável. E ele nos contava façanhas de seu tempo nos gramados.

Paralelamente ao cinema dos fins de semana (Ipanema ou Pirajá), outra realidade muito forte na infância dos anos 40 do século 20, foram as histórias em quadrinhos. Tinha o Tarzan, o Dick Tracy, que era um detetive formidável, o Charlie Chan, um detetive chinês que nunca deu um soco, mas resolvia tudo, e que depois foi para o cinema. Havia ainda o Fantasma Voador, o Bronco Piller, que era um caubói. O Príncipe Valente, com as histórias do tempo do Rei Artur, eram muito bem desenhadas e deve ter influenciado este meu pseudônimo. Eu o admirava, emocionado.




(09 de julho/2005)
CooJornal no 428


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com