09/07/2005
Número - 428


 

Artur da Távola



A MULHER FACEIRA

Ninguém mais sabe o que é ser faceira. A palavra foi se desgastando pela deformação semântica tão comum em atitudes revogadas. Quem hoje, saberá o que representa para uma mulher ser faceira? Hoje a moçada não está nem aí para ser faceira. Quer é ser gostosa, expressão algo grosseira nada obstante sua veracidade.

Não! Não! Não! Faceiro é muito mais do que isso. Amiga minha, bela mulher, "racé", classuda, com ar de princesa, mais para Grace Kelly outro dia reclamava a quem lhe elogiava a beleza de cisne: “-Estou cansada de ser princesa, elegante, classuda! Nunca ninguém me chamou de gostosa.” Pois tive vontade de lhe dizer que muitas vezes subjaz na mulher faceira uma sensualidade refinada, intensa mas calada, discreta, sofisticada até, longe e superior à concepção atual da “gostosa” que nos é imposta pela propaganda de cerveja, essa insuportável e deletéria propaganda de cerveja. Pois fico com a mulher faceira. Faceira é a mulher que tem o gosto do garbo, da tafularia, da afetação, do dengo, como formas de expressar alegria, prazer de viver, vitalidade, delicadeza de sentimentos, uma certa ânsia de harmonia, de mansidão, de conviver gostoso.

Faceira vem de face, que deriva do latim “facies” ou “facia”, no latim popular. O sentido desta expressão é o de “forma exterior”, “aspecto geral de alguém”, “ar”. Pois faceira é a mulher que consegue fazer de seu “aspecto geral”, um ar de beleza, juventude, alegria, leveza. Em Portugal esse sentido ainda perdura e é falado.

Leveza é a virtude, minha doce leitora. A vida é tão carregada de densidades, dores e problemas, que passar por dentro deles e conseguir manter uma face jovem, taful e um ar alegre, indica uma filosofia de vida, uma energia, uma saúde interior. A pessoa faz-se leve às demais. Desobriga os outros do peso de suportá-la, entendê-la, ouvir-lhe os sofrimentos.

Faceira, portanto, é graça, e muita, na mulher!

Um amigo português usa outra palavra correta, devido ao hábito do falar preciso de Portugal: garrida sim, a faceirice faz as mulheres garridas, elegantes, enfeitadas, brilhantes, casquilhas. Por falar nisso, ocorre-me uma outra característica a da mulher catita. Essa caiu em desuso. Mas os portugueses ainda têm outros recursos no idioma para elogiarem as mulheres: “airosa” !

Faceira, garrida, catita, airosa, seria a bela mulher carioca a recuperar nos seus modos feminis, alguns adjetivos que caíram em desuso. Seria a mulher a recuperar, com novas modas e contornos, os adjetivos que envelheceram. Soem as trombetas. Está cheio de faceiras, airosas e garridas pelas ruas e praias deste Rio de Janeiro. Deus as abençoe! Quanto à hoje badalada gostosa, cuidado: isso só sabe na hora do amor. O resto é voyeurismo...




(09 de julho/2005)
CooJornal no 428


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com