Artur
da Távola
A MULHER FACEIRA |
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Ninguém mais
sabe o que é ser faceira. A palavra foi se desgastando pela deformação
semântica tão comum em atitudes revogadas. Quem hoje, saberá o que
representa para uma mulher ser faceira? Hoje a moçada não está nem aí para
ser faceira. Quer é ser gostosa, expressão algo grosseira nada obstante
sua veracidade.
Não! Não! Não! Faceiro é muito mais do que isso. Amiga minha, bela mulher,
"racé", classuda, com ar de princesa, mais para Grace Kelly outro dia
reclamava a quem lhe elogiava a beleza de cisne: “-Estou cansada de ser
princesa, elegante, classuda! Nunca ninguém me chamou de gostosa.” Pois
tive vontade de lhe dizer que muitas vezes subjaz na mulher faceira uma
sensualidade refinada, intensa mas calada, discreta, sofisticada até,
longe e superior à concepção atual da “gostosa” que nos é imposta pela
propaganda de cerveja, essa insuportável e deletéria propaganda de
cerveja. Pois fico com a mulher faceira. Faceira é a mulher que tem o
gosto do garbo, da tafularia, da afetação, do dengo, como formas de
expressar alegria, prazer de viver, vitalidade, delicadeza de sentimentos,
uma certa ânsia de harmonia, de mansidão, de conviver gostoso.
Faceira vem de face, que deriva do latim “facies” ou “facia”, no latim
popular. O sentido desta expressão é o de “forma exterior”, “aspecto geral
de alguém”, “ar”. Pois faceira é a mulher que consegue fazer de seu
“aspecto geral”, um ar de beleza, juventude, alegria, leveza. Em Portugal
esse sentido ainda perdura e é falado.
Leveza é a virtude, minha doce leitora. A vida é tão carregada de
densidades, dores e problemas, que passar por dentro deles e conseguir
manter uma face jovem, taful e um ar alegre, indica uma filosofia de vida,
uma energia, uma saúde interior. A pessoa faz-se leve às demais. Desobriga
os outros do peso de suportá-la, entendê-la, ouvir-lhe os sofrimentos.
Faceira, portanto, é graça, e muita, na mulher!
Um amigo português usa outra palavra correta, devido ao hábito do falar
preciso de Portugal: garrida sim, a faceirice faz as mulheres garridas,
elegantes, enfeitadas, brilhantes, casquilhas. Por falar nisso, ocorre-me
uma outra característica a da mulher catita. Essa caiu em desuso. Mas os
portugueses ainda têm outros recursos no idioma para elogiarem as
mulheres: “airosa” !
Faceira, garrida, catita, airosa, seria a bela mulher carioca a recuperar
nos seus modos feminis, alguns adjetivos que caíram em desuso. Seria a
mulher a recuperar, com novas modas e contornos, os adjetivos que
envelheceram. Soem as trombetas. Está cheio de faceiras, airosas e
garridas pelas ruas e praias deste Rio de Janeiro. Deus as abençoe! Quanto
à hoje badalada gostosa, cuidado: isso só sabe na hora do amor. O resto é
voyeurismo...
(09 de julho/2005)
CooJornal
no 428