Artur
da Távola
A ÂNSIA DE SER O QUE NÃO É |
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Toda pessoa aspira ser o que ainda não é, ou ter o que ainda não tem. Nas
sociedades materiais, possuir bens e sair do sufoco terrível de ter que
viver pensando na casa, na roupa, e na velhice, é uma das aspirações do
homem médio.
Na sociedade de consumo, o índice de subida e de progresso pessoal é
medido, pela capacidade de consumir. "É" mais, quem pode consumir mais. A
variedade e diversificação da capacidade de consumir determina formas
objetivas e subjetivas de valorização da pessoa.
Assim sendo, o mundo dos que consomem com fartura passa a ser um mundo
invejado, aspirado, desejado, ansiado. Ele representa o nível de aspiração
dos que estão abaixo na escala social, sobrevem um impulso saudável de
"subir". Mas também aumentam a cobiça e a inveja.
Cada pessoa sabe ter uma possibilidade de ascensão. A maioria conhece os
limites dessa possibilidade. Muitos, porém, os desconhecem e passam a vida
tentando atingi-lo. Alguns (raros) o conseguem e passam a coonestar a
possibilidade de todos fazerem o mesmo, utopia que se ocorresse mudaria a
sociedade, alterando as suas divisões e subdivisões sociais.
O hindu Baghwan Shree Rajneesh dizia que a grande fonte de aflições
humanas é o tornar-se. O homem abandona o próprio ser e as disposições
básicas de seu temperamento e vontade para tornar-se algo, ser alguém. Por
isso sofre.
O tornar-se transforma (transtorna?) o indivíduo num eterno insatisfeito,
num eterno buscador do que ainda não tem e nunca terá pois sempre quererá
mais. O tornar-se é a fonte de todas as aflições do homem e das sociedades
porque aos poucos passa a ser a razão da vida. Esta, deixa de ser a
capacidade de viver o momento e o novo o que nele (momento) existe (e
insiste), para ser uma eterna preparação para algo sempre além.
O tornar-se (substituindo a grandeza maior do Ser) constitui-se na causa
principal da angústia contemporânea porque coloca objetivos sempre fora,
sempre além, sempre adiante, impedindo o homem de viver o que se lhe é
dado com a plenitude só possível a quem compreende que a eternidade é o
instante que passa.
É difícil para a cabeça ocidental conceber essa atitude budista de repúdio
ao tornar-se. Toda a dinâmica de qualquer dos sistemas do Ocidente,
religiosos ou políticos, tem por base a necessidade de superação do homem;
o permanente esforço para atingir patamares novos e mais altos. Nesse
sentido, a ânsia por tornar-se seria a própria mola propulsora do
progresso. Assim pensa o Ocidente.
A tese da sociedade de consumo, é, pois, esta: excitando o desejo de
consumir, será obtido um consumo maior e assim crescerá a produção.
Crescendo esta, haverá mais emprego, melhores salários e as pessoas
realizarão esforços extraordinários em trabalho e estudo para obter uma
valorização maior.
Esse esforço coletivo, impulsionado pelos desejos individuais, determinará
o progresso e a gradual democratização da sociedade pelo equilíbrio
natural das oportunidades, segundo os méritos e o valor (sempre
diferentes) de cada pessoa. É verdade: mas a um alto preço existencial.
(16 de julho/2005)
CooJornal
no 429