Artur
da Távola
APENAS UM MEDIANO |
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Aos sessenta e sete anos com calma e resignação afinal aceito o que sempre
tentei negar: ser um mediano. Cheguei a supor-me capaz de ser filósofo
quando moço, mergulhado nas inquietações do ser. Faltou-me continuidade,
mergulho sério no estudo. Preferi a vida e seus desafios.
Restaram-me fiapos de Kant, raivas de Hegel, influências agônicas de Marx,
pouco de Santo Tomás de Aquino, o Deus de Spinoza panteísta, paixão por
Heráclito e admiração por Zenão de Eléa que ainda me desafia a provar que
o movimento existe. A estes freqüentei de modo boêmio, superficial e
utilitário. Já dos pensadores de meu tempo apenas compreendi e estudei
Althusser mas até ele assassinou a mulher e morreu louco... De Lacan,
Delleuze, Marcuse, fugi. Por ignorância, preguiça e por preferir a
sabedoria ao intelecto. Incorporei o budismo zen e o cristianismo
existencial de Gabriel Marcel; e o musical de Olivier Messiaen. Orgulhoso
ou solitário (não sei), jamais deixei-me ocupar (invadir, sim, ocupar
jamais!) por pensamento, crença ou fé excludentes. Insisto em considerar a
vida um enigma e tudo um continuum sem solução, salvo as parciais.
Jamais entreguei à inteligência, força exclusiva ou reverente adesão.
Pareço preferir a intuição e o sentimento introvertido. Afinidades com
Jung e com o mitólogo Paul Diel. Sempre diletante, fui um político lúcido
mas sem paixão, exceto a que sinto pelo Brasil e pela música mas nem sei
explicar.
Dispersivo e curioso, tudo me interessa e nada me impregna, salvo
ligeiramente e de modo passageiro. Talvez perdurem hoje em meu espírito,
manifestações aparentemente inconciliáveis como: a visão zen, o mistério
de Pentescostes, Cristo no monte das Oliveiras a meditar sobre a morte, a
religião musical das “Paixões” de Bach, principalmente a segundo São
Mateus, os êxtases de São João da Cruz, as bem aventuranças e a fé
inocente de Santa Terezinha do Menino Jesus. Na política, admiro Ho Chi
Min e Churchill. Terei solução?
Faltaram-me tempo e seriedade para estudar o Islamismo, o Judaísmo e para
mergulhar nas praticidades de Confúcio a quem tanto admiro ou para ser
mais decidido e praticar a Arte da Guerra de Sun Tzu. Declaro minha paixão
por Lao Tsé e pelo poeta Bashô nos seus hai-kais. Impressiona-me a
santidade de Chico Xavier. Tudo, porém é rápido: faltam-me paz, ciência
(paciência?), para estudar anos a fio (afio?) a obra deslumbrante de
Eliphas Levy, o padre esotérico. Sei de tudo um pouco. Não parece ser uma
boa sina de pacificação interior. Coisa de mediano. Bobagens de cronista.
(23 de julho/2005)
CooJornal
no 434