30/07/2005
Número - 435


 

Artur da Távola



Manifesto Ingênuo

A poesia começa quando o poeta pensa que acabou o poema. O poema não é a poesia.

É somente um dos seus condutores, talvez até o mais aparelhado.

Toda poesia que cede ao poema frustra-se.

Todo poema que cede ao verso, perturba-se.

Todo verso que cede à beleza arrisca-se.

Toda beleza que domine o poeta ameaça-o de não alcançar a poesia.

O poema precisa ser escravo da poesia. Deve aviltar-se, ser volúvel, hipócrita ou solidário, mas corajoso o suficiente para compreender e aceitar o seu lugar de coadjuvante.

Há poetas que começam e acabam seus versos no poema e jamais atingem a poesia, mesmo utilizando-se da melhor inspiração e de refinada linguagem.

Poesia, poema, verso e poeta são concomitantes, contraditórios e conflituosos ao mesmo tempo. Inimigos íntimos que se amam.

A poesia é soberana. O poema e o verso, invejosos, ambicionam o lugar dela. O poeta é um ser carente, aturdido e lindo, o único com permissão de levar o verso, o poema e a beleza para o julgamento da poesia. Esta, exigente, quase sempre reprova os vários intentos do poeta, embora jamais o proíba de dar luz ao poema. A poesia sabe que, mesmo quando não alcançada, vislumbres do que é podem estar presentes no poema, em alguns ou muitos versos ou nos delírios do poeta. Por isso só interfere no seu trabalho para disparar a inspiração.

A poesia é deusa. Verso e poema são anjos: intermediários entre o território superior e sagrado da poesia; entidades de grande valor transitivo. Jamais verdades em si mesmas.

O poeta é o herói mitológico. Nasce do casamento de uma deusa (a poesia), com um mortal (o poema). É bem-vindo, porque ajuda a quase impossível compreensão do que é a poesia. É um ser alado e bendito, amaldiçoado pela dúvida, cujo afã é o verso e a finalidade o poema. Alça-se à procura da deusa-poesia. Esta, somente em alguns casos e por especial concessão olímpica, se deixa alcançar, desde que o poeta não se embebede com o verso, com o poema ou consigo mesmo, sobretudo se for talentoso.

Poema e verso jamais podem se arrogar a pretensão de representar com exclusividade a poesia. São meros condutores que, ao se suporem representantes da poesia, são por ela punidos.

A poesia é tão superior, que nem da beleza precisa. Esta, em geral, a disfarça ou atenua. Por mais bem que faça - e faz - a beleza é a ilusão da poesia. Só vale, quando se serve do poema para tentar atingir a poesia. Esta só precisa de som, ritmo e palavra por viver mais próxima da música, que do discurso.

Não é o poeta que escolhe a poesia. Esta o escolhe sem lhe fornecer, jamais, poderes incondicionais sobre o poema e quase sempre lhe negando a precisão do verso; às vezes até embebedando-o com notáveis descobertas no idioma. E quando, por ser superior, humilha, logo depois se mostra disponível tanto melhor quanto mais fácil e desfrutável. Esconde-se onde se revela, chegando às vezes à humildade de necessitar do poema a quem em seguida desdenha e escarnece.
A única liberdade possível ao poeta é a de buscar a poesia.

Ela quase sempre está onde o poema a oculta ao mesmo tempo em que a proclama.



(30 de julho/2005)
CooJornal no 435


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com