03/09/2005
Número - 440


 

Artur da Távola



A MULHER E A ALIANÇA

Existem alguns deliciosos sinais de timidez, ademais repletos de sutileza. Adoro os ler em mim e nas pessoas. Mas finjo não perceber. Dá-se quando alguém entra em lugar onde há outras pessoas (elevadores, consultórios médicos, filas, lojas etc.) e como que oculta o rosto ou parte deste com a mão. Parece um gesto natural de coçar a face, a testa, afiar o nariz, fazer o clássico olhar de paisagem, passar a mão por entre os cabelos ou ar de quem a alguém procura.
Outro dia, no sentido contrário ao de minha caminhada a flanar pelas ruas do Leblon, vinha uma bela jovem. Ainda meio longe, senti que me reconheceu. Dei uma disfarçada e ao nos cruzarmos olhei-a naturalmente, pois na minha idade a admiração não vem cercada nem de intenção, nem de hipótese de fruição... É puro senso estético. Ela fez, então o inevitável e defensivo gesto de encabulamento que consiste simular naturalidade ao arrumar o cabelo e sacudi-lo a partir da testa e, nesse "distraído" gesto, encontrar a forma de exibir a aliança de casada.

Ao longo dos anos, acostumei-me a ver esse gesto que quer dizer: "Olhe, eu sou comprometida". Naquele momento, porém, em pleno século vinte e um, quando o casamento não tem ou não mais aparenta os rigores de então, aquela demonstração da aliança comoveu este velho coração. Ela era do tipo bastante atual, com a roupa airosa que caracteriza as moças moderninhas, penteado idem, e (ainda a perdurar na memória da breve passagem) a timidez do gesto de passar a mão pelos cabelos sedosos, exatamente com a mão esquerda, anel de casada à mostra.

A linguagem dos gestos é rica. Nas mulheres é milionária. Com que naturalidade passam a mão ao cabelo, jogam-no para trás, coçam o rosto, disfarçam a timidez, e no caso das mulheres de antigamente, ao fazê-lo, o sadio e natural orgulho de exibir a "vitória" de uma aliança.

No gesto da moça tímida e bonita (ainda existem, sabia?) que passou por mim e tantas outras pessoas (bem mais ávidas) e o repetiu, brilhava um momento insuperável da beleza, recato, e natural orgulho do eterno feminino. Poesia pura. As mulheres ficam muito mais belas e atraentes quando cuidam de seus casamentos...



(03 de setembro/2005)
CooJornal no 440


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com