Artur
da Távola
A MULHER E A ALIANÇA |
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Existem alguns deliciosos sinais de timidez, ademais repletos de sutileza.
Adoro os ler em mim e nas pessoas. Mas finjo não perceber. Dá-se quando
alguém entra em lugar onde há outras pessoas (elevadores, consultórios
médicos, filas, lojas etc.) e como que oculta o rosto ou parte deste com a
mão. Parece um gesto natural de coçar a face, a testa, afiar o nariz,
fazer o clássico olhar de paisagem, passar a mão por entre os cabelos ou
ar de quem a alguém procura.
Outro dia, no sentido contrário ao de minha caminhada a flanar pelas ruas
do Leblon, vinha uma bela jovem. Ainda meio longe, senti que me
reconheceu. Dei uma disfarçada e ao nos cruzarmos olhei-a naturalmente,
pois na minha idade a admiração não vem cercada nem de intenção, nem de
hipótese de fruição... É puro senso estético. Ela fez, então o inevitável
e defensivo gesto de encabulamento que consiste simular naturalidade ao
arrumar o cabelo e sacudi-lo a partir da testa e, nesse "distraído" gesto,
encontrar a forma de exibir a aliança de casada.
Ao longo dos anos, acostumei-me a ver esse gesto que quer dizer: "Olhe, eu
sou comprometida". Naquele momento, porém, em pleno século vinte e um,
quando o casamento não tem ou não mais aparenta os rigores de então,
aquela demonstração da aliança comoveu este velho coração. Ela era do tipo
bastante atual, com a roupa airosa que caracteriza as moças moderninhas,
penteado idem, e (ainda a perdurar na memória da breve passagem) a timidez
do gesto de passar a mão pelos cabelos sedosos, exatamente com a mão
esquerda, anel de casada à mostra.
A linguagem dos gestos é rica. Nas mulheres é milionária. Com que
naturalidade passam a mão ao cabelo, jogam-no para trás, coçam o rosto,
disfarçam a timidez, e no caso das mulheres de antigamente, ao fazê-lo, o
sadio e natural orgulho de exibir a "vitória" de uma aliança.
No gesto da moça tímida e bonita (ainda existem, sabia?) que passou por
mim e tantas outras pessoas (bem mais ávidas) e o repetiu, brilhava um
momento insuperável da beleza, recato, e natural orgulho do eterno
feminino. Poesia pura. As mulheres ficam muito mais belas e atraentes
quando cuidam de seus casamentos...
(03 de setembro/2005)
CooJornal
no 440