
17/09/2005
Número - 442

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
META-SE COM A
SUA BARRIGA |
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Vim para casa pensando na dificuldade dos tímidos diante dessa coisa
estranha que é sair do anonimato na rua, no bar, na festa ou no elevador e
ficar de repente em evidência: é a súbita evidência! Ela nos pega
distraídos e um mecanismo qualquer (no fundo doentio), que nos faz viver
publicamente com a nossa identidade em certo resguardo, faz-nos destilar
humores malditos.
Tudo desanda quando alguém razoavelmente tímido é levado a sair de seu
silêncio e se põe em evidência! Por fora, ninguém nota, mas por dentro eu,
por exemplo, me rôo. Fogo é o falso íntimo! Especialista em criar
embaraços. Mal nos conhece e já nos inclui na lista do "é meu grande
amigo".
O falso íntimo sempre está em lugares onde entramos encabulados, tipo
festa em que só conhecemos o dono da casa. Quando nos vê, saúda efusivo o
"grande amigo". E o faz em voz alta, lá de longe, para todos poderem olhar
e a gente ter que enfrentar aquele constrangedor silêncio que se fez por
nossa chegada. É de doer! Há uma variedade do chato falso íntimo que
consiste em agarrá-lo com força esmagadora, gritar “GAROTÃO” e levantá-lo
do chão, esmagando exatamente aquela velha hérnia umbilical que você teima
em não oferecer ao bisturi. E falso íntimo eufórico que já está mamado e
lhe sapeca um beijo babado?
Súbita evidência dos outros é divertida e mostra o nosso guardado lado
sádico. Escorregão na rua, como não rir? Gozada, também, é a cara que faz
a mulher carnuda ou de balaio grande como diria o Caymmi, digamos uma
falsa “boa”, já rodada mas ainda enxuta para certos gostos, atravessando a
rua logo depois do sinal abrir. Aí um carro freia, o outro buzina, três
choferes de táxi lançam galanteios. Mal ou bem, ela chega do outro lado
entre xingada e gratificada. Só quem tem olhos para ver olhares é capaz de
precisar o que nela brilha de encabulamento e glória pelos segundos de
súbita evidência.
Enfaixar a mão, um pé ou botar roupa nova bem melhor, é outra insuportável
"súbita evidência", para quem é algo tímido. Ter que explicar a cada um "o
que houve?" com o braço, a perna quebrada ou o casamento, esgota as
energias de um dia de trabalho. Dá vontade de andar com um gravador com a
explicação pronta.
Ter barba e cortar! Ser cabeludo e tosar! Viajar e voltar de bigode são
súbitas evidências difíceis de digerir. Outra é engordar e a barriga
crescer. Todo mundo tem que se meter com a barriga da gente?! Já reparou?
(17 de setembro/2005)
CooJornal
no 442
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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