24/09/2005
Número - 443

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



A MORTE DO PREFEITO

O que lhes vou falar é uma impressão. Leram bem? Uma impressão de minha sensibilidade. Subjetivo, portanto. Acho que toda a via crucis do PT (por causa do leninismo infiltrado no chamado “campo majoritário”) começou com o bárbaro assassinato do Prefeito Celso Daniel, de Santo André.

Uma voz interior diz-me que era um homem decente e bom. Sua imagem, quando aparece nas televisões, carrega-nos de um sentimento de misericórdia: seja por seu olhar de carneiro prestes ao sacrifício, como pelo sacrifício em si, brutal, perverso, covarde. Sinto-lhe o susto, a perplexidade, o saber-se ludibriado por pessoas de quem jamais pensara mal. Sua dor e decepção nos momentos (Dias? Horas?) que antecederam o assassinato. É algo que punge fundo na alma do Brasil.

Igualmente a luta corajosa de seus irmãos também comove, enfrentando a tudo e todos para conseguirem o esclarecimento do fato. É uma heróica batalha contra a monstruosidade do ocultamento. Repito não saber detalhes, ignoro se digo algo coerente e certo, a ninguém acuso. O que falo resulta de uma intuição e do sentimento de Misericórdia a cada dia maior em meu ser. Também não penso que o Prefeito de Santo André desconhecesse o esquema de dinheiro para o partido. Aliás, seu próprio irmão o deixou transparecer, quando depôs na CPI. Porém jamais deve haver sido conivente com o uso que lhe deram. Mas essa mesma intuição indica de nada se ter apropriado pessoalmente. E mais: sempre senti em seu olhar a ferroada que lhe ia n’alma. Sempre que a imagem dele aparecer, reparem no olhar de Celso Daniel: bondade, honradez pessoal e uma espécie de dor por haver-se deixado levar por um esquema do qual não se beneficiou e por momentos o fez vacilar, julgando ser a regra do jogo.

Ademais, para cúmulo de coincidências trágicas, sempre que a questão vem à tona, algum fato noticioso mais emocionante direta ou indiretamente o abafa na mídia, novidadeira, como aconteceu com o depoimento do irmão dele há semanas, o qual passou quase em branco diante dos fatos maiores (do ponto de vista noticioso, não do humano) que se atropelaram na opinião pública.

Falo apenas como ser humano: não sou detetive, não conheço pormenores, não sei de quem é a culpa e a ninguém acuso. Mas percebo ali ter começado a Via Crucis do PT e sinto uma dor profunda com a tortura e morte daquela pessoa, envolvida nas engrenagens trágicas da atividade política, aquela que Tancredo Neves dizia ser “uma atividade feita de vítimas”. E eu acrescento, ser a política uma atividade que não se funda na felicidade e sim na adversidade. Daí a sua grandeza e drama que vivem entrelaçados.



(24 de setembro/2005)
CooJornal no 443


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com