
01/09/2005
Número - 444

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
|
Artur
da Távola
TUDO NÃO CABE |
 |
Um dos grandes
dramas do ser humano é este: todas as vidas que a gente tem não cabem em
toda a nossa vida.
Quanto mais complexo o ser humano, maior a impossibilidade de conciliar
internamente, e/ou de viver as várias vidas existentes.
Pessoas há que, para dar vazão às vidas que latejam dentro, partem para a
arte, a política, o sacerdócio com grande mérito e muita renúncia. Nesse
sentido, a arte, por exemplo, é puro processo de criação, porque permite
virem à tona sob a forma simbólica, a existência das várias vidas que -
paralelas- vivemos internamente. Escrever, pintar, representar, poetar,
musicar, cantar, orar, servir a Deus ou ao país, são a vazão que o artista
dá a todas as vidas que tem e não cabem em toda a sua vida, porque esta
vai sendo ocupada desde cedo com deveres e idéias que adotamos (ou nos
fizeram adotar) e com os quais, de alguma forma, cimentamos compromissos,
deveres, responsabilidades. O risco é a frustração. A vantagem é a
seriedade e a dedicação a causas importantes
Outras pessoas, porém, há, que, em vez da forma artística citada, partem
para viver todas as vidas que têm. Nada de representações das várias!
Ainda que impossível vivê-las todas, é preciso tentar! Fazer o possível
para viver o máximo de vidas possível. O risco é a esquizofrenia. As
vantagens são a soltura, a alegria, o descompromisso.
As pessoas que tentam viver todas as vidas que têm, pela coragem, pelo
desprendimento, pelo impulso de enfrentar o impossível, mesmo quando não
merecem a adesão ou imitação do público, ganham-lhe o respeito ou a vaia.
É que elas são capazes de sofrer para se exporem a tudo aquilo que embora
seduzindo provoca natural temor no ser humano médio.
E o que é ter muitas vidas, as tantas que não cabem em toda a nossa vida?
É saber-se pouco diante do muito que se é capaz de sentir. É conseguir
sair da trincheira existencial e tornar-se parte de outros mundos humanos,
os quais se percorre com a alegria de criança em viagem. É ser múltiplo na
unidade e desesperadamente procurar a unidade na multiplicidade sedutora e
fugidia do mundo. Assim também é o amor: um rio de muitas vertentes. Acaba
virando um Amazonas. Vocês já viram o pouco mais que um filete d’água onde
nasce o Rio São Francisco?
(01 de outubro/2005)
CooJornal
no 444
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
|
|