
04/02/2006
Número - 462

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
|
Artur
da Távola
AZEITE MISTURADO COM VINAGRE |
 |
O que torna
difícil e eternamente enigmática a relação amorosa, é que ela se sustenta
num tripé quase nunca regular: sensualidade, afetividade e segurança.
Esses três elementos não são estáveis ou simétricos. Até brigam entre si,
contradizem-se. Precisam equilibrar-se, o que significa o máximo de
tensão, entre os três. A contradição é a seguinte: sem esse equilíbrio, a
relação se torna difícil e com ele é penosa e cheia de renúncias. Eu penso
que se pelo menos houver dois desses três elementos, ela se sustenta. Mas
se há um só....não dura.
· SEGURANÇA: não há lei mandando um marido ou uma esposa serem afetivos,
carinhosos, atentos, manterem fidelidade, lealdade, mas todos os códigos
puniram e punem o excesso de sensualidade que constantemente conduz à
sedução, à exacerbação dos sentidos e até ao chamado adultério. Um
mistério profundo este que leva o homem e a mulher em estado de amor a
tanto necessitarem da segurança através da dedicação exclusiva da outra
parte. Emocionalmente ela (a segurança) não pode ser desprezada. Por mais
evoluída que a pessoa seja ou queira ser raramente ela pode ser esquecida.
Nunca vi a tal da relação aberta dar certo... Pela segurança na relação
muita infelicidade nas outras partes da relação é trocada por continuidade
tranqüila ou tempestuosa (mas continuidade) da relação. Ela é poderosa e
castradora porque independe do prazer.
· AFETIVIDADE: esta, inclui a afinidade, o sentimento dominante, condições
fundamentais do relacionamento amoroso. A afetividade está sempre presente
no lado mais carente de todos nós: o lado carência,infância, dependência,
necessitado de afeto e compreensão. É variada e deslumbrante em seus
disfarces. Ora é carinho, ora é paciência e atenção, ora é capacidade de
calar discordâncias, ora é fingir que não vê. É o elemento que melhor se
dá com os outros dois. Mas sem a segurança se torna inócua e sem a
sensualidade se torna melosa, embora possa fazer prodígios de resistência
em uniões nas quais sensualidade e segurança estão ameaçadas.
· SENSUALIDADE: inimiga da segurança e da afetividade, embora só funcione
a favor da relação amorosa quando entrosada com as mesmas. É o pólo
desequilibrador do tripé, embora essencial. E aí é que está o problema.
Uma contradição, é certo. Mas de contradições são feitas as relações
humanas e amorosas. Pode dirigir-se só para a pessoa amada, mas mesmo
nesses casos (sensualidade com fidelidade) ela é por definição inquieta,
exigente, inesgotável, resiste com dificuldade a cansaços e desencantos.
No caso de não se dirigir apenas ao objeto amado exige variedade, cede a
vaidades, é carente e aceita qualquer estímulo novo. É um dos elementos
complexos e misteriosos da relação amorosa, principalmente por que levou
milênios se disfarçando para poder sobreviver em sociedades que a
condenaram, condenam e temem exatamente por seu caráter desintegrador e,
paradoxalmente pela forte dose de prazer por ela representada.
(04 de fevereiro/2006)
CooJornal
no 462
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
|
|