
01/04/2006
Número - 470

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
ERNESTINA DEPRIMIU |
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Ernestina,
desde pequena, foi ajuizada e séria. Cresceu sem as solturas e prazeres
exagerados da juventude. Era alegre e é bonita. Deixou os cabelos
embranquecerem naturalmente, desde os 45 anos. A pele perfeita, os olhos
pretos de jabuticaba, o cabelo branco no rosto jovem. É a representação
visual da honradez em forma humana. Católica por convicção, desde cedo.
Acreditava que o seu Cristianismo devesse ser radical (de raízes), na
linha dos cristãos primitivos. Isso a levou à política nos anos da
ditadura e, na democratização, acreditou profundamente num dos partidos
políticos nascidos da luta anos de chumbo. Fascinante era a sua mistura de
fé verdadeira e não carola, idealismo, consciência das injustiças sociais
e disposição para enfrentar a dura realidade do conservadorismo
brasileiro.
Atira-se à luta política, sem descuidar de sua casa. Bem casada, um lindo
casal de filhos. Ótima figura de mãe. Rogério, o marido, inteligente,
bonito também, compreensivo e amoroso. Não era conservador, mas discordava
de sua escolha partidária. Nunca interferiu, entretanto, nas decisões
políticas dela, mãe primorosa, educadora através do amor, esposa caída do
céu. Noites, dias, meses, anos, campanhas várias. Ernestina se prestava
com prazer aos mais humildes papéis de militante verdadeira, panfletava,
abria passeatas, virava noites, discutia com bravura e fortes argumentos.
Jamais desejou candidaturas por mais convidada fosse.
Quinta feira passada foi à casa do Paulo Alberto (seu companheiro de
geração), pessoa de quem chegou a andar distante e ter o tipo de raiva que
se tem dos amigos, aquela sem desamor. Discordava por considerá-lo
conciliador em excesso, embora fosse ele seu melhor amigo, o das horas
difíceis. Dizia-lhe: “A você falta vinagre, Paulo. Falta vinagre à sua
ação política. E você me irrita com essa mania de afirmar que a esquerda,
no Brasil, só tem chance de avançar pelo centro, jamais pela esquerda.”
Paulo encontrou-a derreada, como jamais a viu. A mulher forte, honrada,
idealista desabara. Foi o dia seguinte ao da leitura do Parecer do
Deputado Osmar Serraglio, relator da CPI dos Correios. Atormentada ao
fundo da alma e em choro compulsivo disse ao amigo: “Deponho as armas.
Tudo o que fiz, disse e discuti, foi negar a realidade pelo menos até a
metade da CPI. Agora não dá mais para resistir. Meu mundo caiu (e lembrou
a canção de Maysa). Não consigo conviver com tanta patifaria. Nunca mais
farei política. Vou é tratar de ler, de amar ainda mais meu marido e os
filhos! Chega! Que terríveis são essas certezas! Estou exausta. Nem a fé
me trouxe forças”.
Deprimiu-se de tal forma, que Paulo Alberto telefonou para o marido dela
por sentir que uma reversão de expectativa de anos de idealismo destroçava
a vida interior de uma pessoa decente e limpa de alma. Poderia até adoecer
de depressão. Com a chegada do marido, já um tanto aplacada, mas um trapo
de dor e decepção voltou para casa, amparada por ele. Em seu ouvido,
perdurava, obsessiva, uma das frases do Paulo Alberto: “ Ernestina:
agüentei calado por anos a sua decepção com meu modo de ser, porém agora
preciso dizer-lhe a verdade: você ainda não é um quadro político”. Ela
estranhou, reclamou. Ele insistiu firme e sentencioso: “Alguém só se
transforma em político depois da decepção. Antes da decepção, é tudo
ilusão, idealismo, ética, religião, é uma porção de coisas boas, porém
ainda não é política. Somente quem consegue prosseguir na ação política,
depois de se decepcionar, este sim, é o verdadeiro quadro político.”
(01 de abril/2006)
CooJornal
no 470
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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