15/04/2006
Número - 472

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



MAMÃE QUERIDA:

Muitas saudades e constantes lembranças do quanto você me alertou antes do casamento. Como vão meus filhos? Em idade universitária, temo por eles. Principalmente pela Euterpe, sempre tão sensível e rebelde ao mesmo tempo. Contudo não poderia deixar passar essa Páscoa sem lhe enviar algumas linhas de amor e reconhecimento, a você e papai, (que Deus o tenha) por tudo o que me deram e geraram de amor, respeito ao próximo e à dignidade humana.

Estou bem melhor da crise nervosa que me trouxe a esta casa de repouso. O Dr. João Paulo é magnífico e graças à sua orientação vou ganhando forças para continuar a luta, ao lado de meu marido. Sei o quanto ele precisa de mim. Conhecemo-nos há mais de 25 anos nas lutas contra a ditadura, na vitória gradual da democracia. Choro muito quando penso, mamãe, como vibrava minh’alma com o sonho de uma pátria socialista e democrática (vibra até hoje); como me entreguei ao soerguimento da política brasileira e nesse roldão de afetos, nos apaixonamos e casamos, três filhos! Depois rio amarelo quando penso que deixei o nosso Recife querido para morar em São Paulo, o nascimento de Lenine, Leon e Euterpe, nossa caçulinha querida, já no primeiro ano da universidade.

Mas ontem, depois de meses de padecimento, estava eu na sala de estar do sanatório (veja só, chamo esta casa de repouso de sanatório... vai ver que estou doida mesmo... rs), em um jornal largado por lá, vejo que depois de todos esses meses de sofrimento agora é a procuradoria Geral da união que o indicia junto a 39 outros indiciados nessa questão do “mensalão”. Piorei muito e o meu lenitivo é falar com você pela Páscoa e pedir a Deus que nos dê forças. Nós nos amamos mas quando ele me relatou como conseguiam condições financeiras para ficar muitos anos no poder e aos poucos levar o País para a revolução social, com apoio de vários outros países da América, eu senti que não daria certo. Avisei-o. Travei terríveis discussões políticas com ele. Nada. Estava cego. Ficamos rompidos quase oito meses, ele parece que tomou nojo de mim. Eu me tornara uma chata. E ele a dizer: “Lá vem você com esse tolo moralismo pequeno burguês.” Eu sabia. Eu sabia, mãe! Mulher adivinha. Tudo ruiu, passamos vergonha pública e com vizinhos, amigos, nossos filhos são hostilizados nas faculdades que freqüentam. Por isso não paro de chorar. Quando a gente previne e depois acontece não deve falar “eu não disse?” Eu nuca falei. Mas ele me olhava e escutava dentro dele esta recriminação terrível. Há uma música que diz “a dor da gente não sai jornal”. É verdade. Ele errou, errou feio, merece pagar por isso. Mas sempre fui e sou mulher de um homem só. Meu dever de amor é ficar ao lado dele. Com horror (será vergonha?) de mim, só veio me visitar duas vezes. O stress me derrubou. Mas com ajuda de Deus, em quem sempre acreditei e a mediação de Jesus, vou sair desta e ficar ao lado dele. A menos que me escorrace. Mas nossa vida nunca mais vai ser igual. Estou chorando muito. Vou parar.

Boa Páscoa. Um beijo de sua filha que a ama.
Polyana.



(15 de abril/2006)
CooJornal no 472


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com