29/04/2006
Número - 474

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



AQUELE ALMOÇO DAS AVÓS

Vendo na quinta feira a notável atriz Irene Ravache, no rol da personagem Katina, feliz e temerosa por estrear-se como chefe de cozinha de um restaurante grego, o amor pela cozinha de seu país e por estar a trabalhar em algo que lhe era profundo, ao lado da qualidade artística de toda aquela família, na qual todos os atores estão excelentes e são uma atração à parte, da estreante Maria João ao “turco” formidável do grande Lima Duarte. Ao ver a cena, repito, lembrei-me de quantas famílias no Brasil, desde alguns séculos tiveram uma avó, bisa ou matriarca imigrante, cuja qualidade do cozinhar era (e ainda é, por herança) uma das formas notáveis de dar amor e recordar a si mesma na terra natal ou dos ancestrais que vieram de distantes lugares para este País plural que a todos acolheu, enturmou e transformou em brasileiros, sem preconceitos.

Não apenas pela versatilidade e talento da atriz, fiquei comovido com esta cena passageira. Como neto de imigrantes árabes que chegaram ao Rio Grande do Sul (Garibaldi) em 1909, ano em que nasceu minha mãe, cresci a ver e a sentir o sabor da comida de minha avó, de minha mãe e de suas irmãs, todas maravilhosas nessa arte e todas menos uma, já partidas para o reino dos esplendores.

Lembrei-me de quantas e quantas famílias africanas, portuguesas, italianas, árabes, judaicas, alemãs, japonesas, chinesas, armênias, polonesas e várias outras, sempre com a presença de mães ou avós inesquecíveis a legar para os descendentes a marca de seu cozinhar famoso, oloroso e saboroso, tudo a rimar com amoroso.

Aquela sopa quentinha à noite, o almoço mais caprichado dos sábados ou domingos, a comida típica da terra de origem a se misturar com as descobertas da cozinha brasileira, mistura de tudo isso, o quibe e a esfiha que até se transformam em petiscos de qualquer botequim... Há pizzarias por todos os lados e pedaços da mesma igualmente nos bares, a cerveja , a loira ou preta e assim por diante, do bolinho de bacalhau ao cozido e à macarronada e desta a hâmus no pão árabe, até sanduíche árabe inventaram.

O Brasil a tudo mesclou, numa cozinha que hoje exporta a feijoada oriunda da sabedoria dos escravos que guardavam pedaços do porco deixados de lado pelos patrões e o misturavam no feijão conseguindo assim, sabor delicioso, calorias e proteínas vegetais e animal (e de quebra muito colesterol).

Benção mães, tias e vovós que herdaram esta tradição e são a referência da casa pelo amor sob a forma de comida e saudade da terra onde nasceram, propiciadas pelo prazer de mesa repleta de parentes e amigos, filhos e netos a crescer e a discutir no almoço, antes de se afastarem vida afora. Benção por serem portadoras de uma cultura que desapareceria não fossem vocês. Eu as amo.



(29 de abril/2006)
CooJornal no 474


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com