06/05/2006
Número - 475

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



GOSTAR DE BEIJAR

Beijo é maravilha. Tanto que seres chamados humanos e os animais o praticam. Lábios prelibam a qualidade do beijo e antecipam a intensidade da cópula. Temperatura, cheiro do ser amado e emoção também. Haverá um só tipo de beijo? Isso é que me intriga, a julgar pelos atuais beijos na televisão.

Uma vez minha mãe ralhou (como se dizia) com uma empregada nossa, nordestina adorável, ótima pessoa e namoradeira, porque morávamos numa vila, e outros residentes reclamaram que ela ficava de “pouca vergonha”, (como também se falava) no portão, com seus vários namorados. Jamais me esqueci da resposta dela:

“Não, Dona Magdalena, é mentira. Eu nunca fiquei de “lambeção” com meu namorado lá no portão”. Rapazote, adorei o termo lambeção e me pergunto se não é isso o que está a ocorrer com os beijos nas telenovelas, diante de milhões de pessoas. Para nossa televisão, só há um tipo de beijo, agora. E essa oferta de amor, tão repleta de estilos, mistérios e promessas, além de prazerosa e sutil, virou apenas lambeção.

Alguns (até crianças) chamam de “beijo de língua”. Em meu tempo de rapaz, havia o beijo e o chupão, que sumiu... A mim me parece mais que beijo de língua ou chupão, um retorno à fase oral, e os beijos de lambeção simulam duas pessoas, uma a mamar na boca da outra. Para nossa teledramaturgia é única forma de mostrar tesão verdadeiro. E há tantas...

Porém, do que me recorde, nem sempre os beijos foram ou são assim. Holywood também mudou, mas pelo moralismo vitoriano dos anos 40, 50 e 60, propiciava o chamado beijo técnico, que qualquer marido ou esposa de atriz ou ator, gostar não gostava, mas acabava por aceitar. Duvido, porém, que o beijo mamado, linguado e salivado seja facilmente aceito por eles, hoje em dia. Ver o seu amor em lambeção com outro/a, essa não! Conheço atores que aceitam pelo profissionalismo, mas preferem não ver a cena...

Quem me lê sabe que não sou moralista. Sou esteta. O beijo lambeção vivido pode ser bom, se as pessoas têm afinidade com a pele, os lábios e o cheiro do outro, e os jogos amorosos já estão adiantados. Mas, sinceramente, visto através da frieza de um vídeo, em super close, não é bonito, salvo, repito, quando a cena assim o exige, o que quase nunca é o caso.

Cá entre nós, me parece meio nojento.

Agora, me respondam, por favor. Estou a ficar velho, ou tenho razão?



(06 de maio/2006)
CooJornal no 475


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com