13/05/2006
Número - 476

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



MÃES, SEMPRE ELAS

Divido as pessoas em quatro categorias: 1) as criadas por mãe; 2) as criadas por pai; 3) as criadas por escola, ou religiões; 4) as criadas por rua.

Apresso-me a dizer que não há tipos puros. São raríssimos. Em geral, dois tipos de criação predominam. “Criado por” é a maneira popular de tipificar o “molde” educacional preponderante na formação de alguém. Em cada pessoa domina um tipo de modelagem (educação?). É o que mais a influenciou. Pode ter, por exemplo, presença fortíssima do pai na educação, mas haver incorporado a formação recebida na escola, ou na rua. Começo por mim. Sou um típico criado por mãe e rua. O pai morreu cedo, e a escola, mesmo, foi a da vida e a sabedoria da mãe. A leitura e trabalhar desde cedo muito me ajudaram. Vou em frente. Renovado, porque sempre em obras... A influência da mãe opera na linha da sensibilidade e da sabedoria. A influência da rua opera na linha da capacidade de ir à luta e aprender a compreender e a se defender.

O machão, por exemplo, é um tipo criado pelo pai, com forte influência da rua. Ou só da rua. As pessoas em quem predomina a influência da escola, ou de alguma religião, em geral são parecidas no modo de comportamento. Por exemplo: todos os ex-alunos de colégios de padre (sobretudo jesuítas e dominicanos) têm um comportamento parecido, que respeita as normas e regras e vai para a vida, de modo correto e conservador. São pessoas resistentes ao novo. Com exceções, é claro.

Estou disfarçando a emoção, pois o que desejo, mesmo, é lembrar minha mãe. Sírio-gaúcha valente. Como tantas que hoje recebem homenagens. Decidida, honesta, viúva com 37 anos e já havendo perdido uma filha de cinco anos.

Poderia ser daquelas superprotetoras, que querem o menininho à barra de sua saia. Nada disso. Tirava-me cedo da cama para ir ao colégio e faculdade, mesmo quando não houvesse a primeira aula. Viveu para doar-me amor e dedicação. Foi do estilo “mãepai”. Aos quinze anos, deu-me a chave da casa. Isso me permitiu a exata dose de rua e de responsabilidade, a qual se mesclou a seu amor, num resultado que me faz dela lembrar-me hoje, amanhã e sempre, com amor, saudade, coragem e gratidão incondicionais.




(13 de maio/2006)
CooJornal no 476


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com