
27/05/2006
Número - 478

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
O PAPA NA POLÔNIA |
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Bela a idéia do
Papa Bento XVI, a de visitar a Polônia em homenagem e reverência a seu
antecessor, João Paulo II (o Papa Celebridade), que lá nasceu, viveu e se
fez religioso.
Nessa visita há outros fatos merecedores de nossa reflexão. Como alemão,
logo de chegar, Bento pediu perdão pelos erros da Alemanha e a barbaridade
operada pelo nazismo na Polônia e com os poloneses, estes dizimados e
aquela arrasada. A palavra dizimados não é exagero.
O terceiro feito de valor moral elevado ele realizou ao visitar o campo de
concentração de Auschwitz para orar pelos mortos e torturados naquele
local de horrenda memória.
Vejo nesses três fatos, o cerne de mensagens cristãs de alto valor: 1) A
amizade por João Paulo II que é forma de gratidão e amor; 2) O pedido de
perdão em nome de compatriotas com os quais como cristão jamais concordou.
3) O arrependimento sincero e a necessidade de oração, ainda que um
arrependimento por atos alheios, além da condenação da barbaridade da
guerra.
E a barbaridade da guerra se hoje não destrói vidas por lá, continua à
solta pelo mundo, dominada por sectarismos políticos e religiosos, que em
dimensão diabólica se estendem mundo afora e também estão incrustadas
dentro dos países, incluamos o Brasil, O Iraque, o Afeganistão, os
Palestinos, o Colombianos e agora até o recém traumatizado Timor Leste que
lutou heroicamente, há poucos anos, por sua independência e liberdade.
Lembremos-nos da África onde milhões morrem além de ser por fome e
enfermidades, também por guerras tribais. Idem o Haiti.
Quero concluir o artigo como a homenagem à Polônia. Poucos países no mundo
padeceram as mesmas dores, invasões e barbaridades que o povo polonês. E
durante séculos. A alma polonesa, porém, apesar de tudo, manteve sua
cultura, sua verdade, suas formas de fé. Povo notável.
Indo um pouco aquém no tempo, lembro o rapaz Chopin que, fraco dos pulmões
desde cedo, aos vinte anos teve que fugir da Polônia diante de uma invasão
russa iminente e que logo se deu. Aquele jovem sensível, com alma em dor
genuína, vai para Paris onde se torna famoso e até o fim de sua curta
vida, teve a Polônia, sua cultura popular e erudita, seus valores de vida
como o centro sensível, inspiração de sua música. Na música de Chopin não
existe apenas a maravilha romântica de muitas de suas melodias famosas que
alguns pianistas repetem de modo exaltado. Nela vive o horror da guerra, a
solidariedade com o seu povo, o amor por ele (as “Polonaises”), o
desespero por invasões e morticínios em massa, pela saudade (nunca mais
viu seus pais e parentes), e pela enfermidade que o obrigava a uma vida de
reclusão nada obstante o seu brilho nos salões parisienses como pianista e
compositor.
Tudo isso bateu forte na sensibilidade do cronista, ao ver o atual Papa,
em uma de suas primeiras viagens internacionais, visitar e orar na grande
Polônia, hoje felizmente um país livre e democrático.
(27 de maio/2006)
CooJornal
no 478
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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