03/06/2006
Número - 479

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



OS BONS ATORES DE BELÍSSIMA

Apesar de a telenovela Belíssima ser atraente, a sua trama é muito doida. Verdade que a carga de suspense de cada capítulo é dosada com perfeição, mas há certas situações que, de tão absurdas, dão vontade de chorar pela falsidade da situação ou das coincidências. Salva-a a qualidade da maioria dos atores e atrizes. Chega a ser impressionante a carga emotiva e os contornos que conseguem dar, sem ficar falsos, nas cabriolas da história. E cada capítulo ferve.

Novela é capítulo: um gole duplo de dramaticidade e espetáculo a cada dia. Temos, então, uma contradição responsável pelo sucesso do gênero. Histórias absurdas, com personagens interessantes, muito bem interpretados por atores e atrizes de alta qualidade, e diálogos via de regra bem escritos. Resulta um produto inusitado na história da dramaturgia. Mas já está na hora de os autores deixarem de repetir esquemas de anos e anos como fórmula, só mudando os personagens e os atores, porém mantendo os mesmo ganchos e desfechos, além do velho maniqueísmo do bem contra o mal, em que os bons são perfeitos e os maus terrivelmente cruéis. Nos anos 70 e ainda 80, as obras de Dias Gomes, Cassiano Gabus Mendes, Bráulio Pedroso, Jorge Andrade, Lauro Cesar Muniz, Ivani Ribeiro, Gilberto Braga e alguns outros não repetiam os mesmos ganchos: o mito da Cinderela. Mocinho rico, mocinha pobre. Mocinho pobre, bom e bonito, mocinha rica, prometida em casamento a algum outro ricaço do seu nível econômico, mas que se apaixona pelo pobretão bom caráter.

Há um mês, numa entrevista com exageros inesperados na boca de um homem tão inteligente, o grande Lima Duarte rasgou o verbo contra os modelos repetidos em todas as telenovelas. A entrevista inteira possui verdades ao lado de trechos injustos, principalmente com o Toni Ramos. Tomara que suas palavras e a experiência de décadas sacudam os autores de telenovelas. Não dá para escrever histórias semelhantes na trama, com personagens até interessantes, atores e atrizes de primeira, mas com formatos que não variam e de olhos postos no Ibope. E isso vai piorar, agora que a concorrência no gênero (recém surgida com vigor em outros canais), chega a ameaçar a hegemonia da Globo pela primeira vez em muitos anos.

O caso de Belíssima é típico: possui todos os chavões do gênero. Um elenco do balacobaco, ótimos personagens, um autor experiente, inverossimilhanças abissais, absurdas até, idem coincidências, e a danada da trama nos prende a atenção e nos envolve em seu fascínio... Contradição, não é? Também acho. Pois assim é o fenômeno do folhetim. A gente fala, reclama, aponta falhas, mas diariamente está lá, de olhos postos naqueles atores notáveis, e presos pela trama. Mistérios.



(03 de junho/2006)
CooJornal no 479


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com