
01/07/2006
Número - 483

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
UM OLHAR DE TERNURA |
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Chego no
boteco, a macharia está lá. Supondo vir a ser compreendido e admirado,
todo pimpão, apresso-me em proclamar:
1- Sabem qual foi o lance mais bonito da Copa?
2- Qual? Qual? Já sei, aquele gol do Argentino de fora da área...
1- Nada disso: tem sido o olhar de ternura do William Bonner para a mulher
nas despedidas do Jornal Nacional.
Levo logo uma vaia. Ninguém me compreendeu. Até de piegas me chamaram, em
gozação. Calo-me, então, a ponto de os demais depois até repararem.
Invento, então, um compromisso e saio antes do fim do papo. A pensar:
Já sei o que os incomodou: a palavra ternura. O mundo anda precisado de
ternura e as pessoas têm medo de demonstrar sentimentos. Mas isso é uma
bobagem. Ternura ninguém manifesta sem sentir. É necessário que venha de
dentro. É o mais leal dos sentimentos. Ternura não se manifesta: sente-se.
Um marido distante quilômetros e um tempão longe da mulher que ama, vê-la
na madrugada e no frio a trabalhar com afinco, mesmo sendo discreto e
polido como o Bonner, sabe que ela é mãe de seus trigêmeos e dia desses
até se preocupou em dizer que lá estava frio como a significar: “Vê lá se
vai pegar uma gripe. Amanhã venha mais agasalhada.” D’outra feita, havia
uma festa dos brasileiros entrando pela madrugada no Hotel e ela encerrava
a sua reportagem do lado de fora. Discreto como sempre, ele quase
perguntou: “Você vai à festa? (Ou vai dormir, deve ter pensado e calou?)
“Nada de festa, ouviu Madame?” Também esta frase não pronunciou. Mas
sentiu o ciuminho e o transmitiu subjetivamente.
Posso pensar que nós cronistas vemos coisas que os demais não percebem e
até desdenham e por vezes eu sei que vivemos nos demais as emoções que
estão a pulular dentro de nós. Pode ser. Há tanta artificialidade na
televisão que aquilo poderia ser combinado. E concluo: poderia ser, porém
não é! O rapaz não é ator. Quando a casa deles foi invadida por bandidos,
todos ameaçados, ele foi valente defensor da família. Arriscou a vida. Do
lado de lá (Alemanha) a Fátima é ainda mais encabulada, e parece uma
menina a disfarçar ao receber uma cantada. Mesmo do marido.
Ora, conclui o velho cronista: receber diante de 60 ou 70 milhões de
brasileiros uma declaração de amor através do olhar terno e saudoso do
marido é a glória para qualquer uma. Sinal de merecimento. Fico com a
minha conclusão: os meus amigos de boteco deram-me um fora errado. Piegas
uma ova: poeta.
Salve o olhar de ternura de um homem por sua mulher, a saudade verdadeira
e o cuidado com ela. É sinal de esperança, de amor e de vida.
(01 de julho/2006)
CooJornal
no 483
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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