
29/07/2006
Número - 487

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
CONVERSA COM AVÓS E COM TODOS
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Ontem vi um
casal de Jacu de Papo Vermelho, ave imensa e arisca, rara, a comer
nêsperas verdolengas, antes de amadurecerem. Engolem o caroço e tudo.
Lindíssimas. É ave rara por essas bandas. Ademais, ampliei a minha
plantação de trevos de quatro folhas, uma das atrações da casa. Se a gente
não retira a rúcula da terra para comer, como toda planta ela dá flor e
semente. Descobri que sua flor é virginal, modesta e linda. Amei tudo
isso.
Quando se envelhece e o gosto pela vida não diminuiu ou desfaleceu, há uma
ampliação do amor para inúmeros flagrantes simples da vida e da natureza
antes despercebidos.
E isso me despertou para esta conversa com as avós e mães porventura na
audiência. Uma das características da idade avançada é a da ampliação do
amor. Sim, o amor se amplia e consegue o milagre de sem abandonar os
principais sonhos, tipo uma humanidade melhor, paz, decência na vida
pública, ele amplia, também (e de modo deslumbrante) as milhares de
pequenas coisas e dons da natureza. Estes, então, vêm para o primeiro
plano e se misturam aos grandes ideais, tornando a vida muito mais bela e
rica, enquanto, ao mesmo tempo a aproximação da morte rói uma parte e o
gradativo envelhecimento das células traz novos sustos.Isso, além de
alguma depressão em geral intermitente. Em compensação nos ensina lidar
com novas limitações.
Um dos exemplos desse alargamento do amor reside na percepção e
compreensão dos netos. É o mesmo amor sentido pelos filhos, mas uma
relação sem ansiedade, mais compreensiva, tolerante e repleta da admiração
pelos pormenores da evolução deles, embora tudo isso já tenha sido
aprendido na vida dos filhos quando pequenos. Não há como explicar porque
o sentimento pelos netos, sem ser maior que o sentimento pelos filhos,
adoça de modo tão diferente o mesmo coração.
Outro exemplo dessa ampliação é a descoberta do sentido profundo do
conceito de compaixão e de um amor que desborda todas as suas fases
anteriores.
Isso, porém, já é assunto para outra crônica.
(29 de julho/2006)
CooJornal
no 487
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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