05/08/2006
Ano 10 - Número 488

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



PREVISÃO DO TEMPO
 

A frente fria afinal chegou, penetrou no meu plexo, que gelou de pavor pela possibilidade do agravamento da guerra no Oriente Médio. A massa de ar quente, porém, continua sobre o território humano, e a secura do coração do genocida Bush desarticulou o equilíbrio do mundo. Com este, o aquecimento das calotas polares iniciaram o degelo dos enormes icebergs que ameaçam inundar os seres humanos com o diabolismo do ódio, do racismo, do terrorismo de estado e qualquer outra forma desta prática.

Os ventos suaves de leste desistiram de acarinhar minha pele como faziam na juventude e, agora, um sudoeste traz previsões sombrias. Há a possibilidade de temporais de lágrimas, que já se iniciaram, alagando o coração de mães de filhos mortos, feridos, idosos e enfermos. A seca subseqüente deverá apagar a umidade no coração humano, os rios do afeto e até as cataratas negar-se-ão a “cataratar”, num presságio de carência de amor.

Terremotos interiores ameaçam a esperança do homem. Marés gigantes avançam sobre as costas frágeis do que já foram praias de alegria, sol, colorido e prazer. O nosso lado bondoso e inocente fica à mercê das cheias dos rios, que invadem casas, palafitas, casebres ribeirinhos e, como sempre, a pobreza é quem paga com a morte e o aleijão. Chuvas constantes em nossos olhos de dentro derrubam encostas de afetos, com desabamentos e mortes das melhores lembranças e boas alegrias.

A massa de ar polar faz os donos da indústria armamentista esfregarem as mãos asquerosas de faturar cadáveres. Tsunamis, maremotos, mísseis, armamento nuclear aquecem (fervem?) a temperatura de nossa ventura interna, destroem em minutos as memórias da infância e juventude. Bois, plantações, vacas, cavalos e gente morrem de seca ou afogamento junto com seus melhores ideais.

A temperatura de nossas vivências benfazejas e as saudades e amores despencam mais de vinte graus Celsius. Neva e há geleiras na alma. Tornados e furacões são esperados para mais uma temporada, com nomes humanos e ventanias de 160 km por hora. Eles derrubam, uma a uma, as nossas melhores formas de amar, de orar, de sonhar e ajudar a construir o bem da humanidade.
Perdida na fuga apressada pela tempestade de bombas, uma criança magra, atrás de um muro de terreno baldio, a ponto de morrer de inanição ou de medo, chora a sós dentro de mim, sem saber o porquê de tudo aquilo. Os pais morreram na tempestade de explosões assassinas.


(05 de agosto/2006)
CooJornal no 488


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com