
19/08/2006
Ano 10 -
Número 490

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
O MILAGRE DA EMPATIA
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O mais difícil
dos sentimentos é o sentimento do outro. O outro é ele e és tu. Ele é
realmente o outro ou é a parte tua que não queres ser, saber, ver ou
aceitar? Tu és o outro para os outros, logo és igual a ele. Todos somos
“outros”. E, no entanto o outro invade, ameaça, mastiga de boca aberta,
irrita, eriça, machuca.
Até teu filho é o outro. E tu, pobre pretensioso, pensas que ele é teu...
O sentimento do outro quantas vezes te faz parar, meditar, deixar de fazer
o melhor que tens ou podes, só porque o outro é o mistério que te ameaça.
Por que o outro te ameaça? Porque és tu. Quanto maior teu sentimento do
outro, maior será teu o sentimento do melhor e do pior que tens.
O sentimento do outro não é sentir por ele. É saber o que ele sente. É
avaliar o como e o quanto ele sente. O sentimento do outro não é o
masoquismo de fazer teu, um sofrimento que só a ele pertence. É
dimensionares a medida certa do sofrimento dele e só poderes ajudar porque
não fazes teu um sofrimento que é alheio mas o entendes e sentes, na exata
medida de sua extensão, sem as marcas e as limitações da dor enquanto dói.
Não é ficar como o outro. É ficar com o outro. O sentimento do outro é
quase um milagre. Cuidado com ele, vai te obrigar a ceder, a entender.
Atrapalhará para sempre teu desejo, tua gula e vontade.
O sentimento do outro é aquilo que é mais prático não ter. Mas, em caso
positivo é contágio de saúde: não podes deixar de exercê-lo. Senão
fermentas. Senão apodreces.
Ele freará tua vitória, calará teu brilho e tua boca, impedirá tua
vaidade. Pode, até, te pregar a suprema peça de te fazer entender os
detestáveis. Cuidado com ele! Quanto maior, mais anulador! Quanto mais
anulador, mais repleto de grandeza.”
O sentimento do outro, talvez te faça tímido, herói, cais, antena. Ser
antena dilacera, sabias? O sentimento do outro te exigirá nervos,
músculos, e uma paciência de anacoreta. Quanto mais o outro o perceba em
ti, mais ele te invadirá, cobrará, exigirá, até quando, exaurido, ainda
consigas juntar os cacos do teu cansaço para, ainda assim, prosseguir.
O sentimento do outro é tua glória e tua tragédia! Tanto mais o terás
quanto encontres em ti os escaninhos escurecidos do que és e, ao mesmo
tempo as luzes do que, ainda puro, brilha em ti.
O sentimento do outro é o conteúdo oculto do amor ao Próximo.
(19 de agosto/2006)
CooJornal
no 490
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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