02/09/2006
Ano 10 - Número 492

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 

Artur da Távola



OS CARIOCAS, SESSENTA ANOS
 

Desculpem falar na primeira pessoa. Domingo último vivi uma noite de felicidade bem carioca, muito Ipanemense, bairro onde nasci em 1936, (faz setenta anos) e ao qual vi modificar-se, crescer e no qual fui criança calada e rapaz feliz e saidinho. Lembrou-me quando fazia política eleitoral e amigos dos subúrbios convidam-me para um almoço nas ruas calmas da zona norte e juntavam dezenas e até centenas de amigos e era comer bem, conviver em paz com pessoas queridas e lamentar ter outros compromissos a seguir. Vontade de ficar ali o resto da tarde, pelo carinho, apoio sincero e convivência amena.

Pois assim foi domingo último ao ver, ouvir viver e conviver em plena calçada da Rua Vinicius de Moraes, organizada por essa verdadeira ONG da cultura brasileira que é a Toca do Vinícius, ver, ouvir viver e conviver com, eu dizia, o conjunto Os Cariocas que estão a comemorar, pasmem,60 anos de existência, um recorde absoluto em durabilidade de conjuntos!

A solenidade consistia primeiro na aposição das mãos de um Ipanemense histórico, na placa de cimento da calçada da fama. Vi o quanto ele se emocionou com esse reconhecimento e ficou grato lá no fundo. E gratidão é um sentimento que me comove por ser raro. Com a dele, a emoção já tomara conta de mim. Aí começou o show de Os Cariocas. Maravilha! Aqueles músicos afinadísimos, acostumados ao silêncio dos estúdios, refinados em harmonia e rítmica, a tocar e cantar em dissonâncias e sonâncias para centenas de pessoas concentradas na calçada, buzinas, ônibus na rua sem engarrafamento, alguns vizinhos da Toca com cadeiras de praia, uma menina de 82 anos a sair da imantada e informal platéia e a dançar bonito, sozinha e feliz.

O maestro Severino Filho é um mago. Fazia bossa nova antes da dita e era pouco compreendido, anos luz à frente dos demais. Foi sendo assimilado e é a meu ver, hoje, uma glória musical brasileira. Em sessenta anos de vida, Os Cariocas, conjunto fundado pelo irmão de Severino o compositor e homem de rádio, alto talento, co-autor da Valsa de Uma Cidade (com o Antonio Maria), Ismael Netto tiveram dois baques. A morte prematura de Ismael e uma passageira dissolução anos depois. Severino então um rapaz tomou a frente do Conjunto, chamou a irmã para fazer a primeira voz (ela estava lá e cantou muito bem) e nesses sessenta anos Os Cariocas são marca da alta categoria internacional da boa música popular do Brasil. Estavam presentes a filha de Severino, a bela e talentosa atriz Lúcia Veríssimo que fez uma linda fala de amor ao pai, a cantora Cláudia Telles, filha da pioneira Sylvinha Telles, e afinadíssima, o Badeco que cantou anos em Os Cariocas, o violonista Chiquito Braga, um dos maiores no gênero; a revelação de cantora Renata Arruda.

Foi uma noite encantatória. Bem carioca. Justa homenagem a esse conjunto a quem agora também saúdo publicamente. Todo mundo saiu feliz. Tudo de graça e na calçada. De parabéns a Toca do Vinicius e seu animador o Professor Carlos Alberto. Isso é vida comunitária.




(02 de setembro/2006)
CooJornal no 492


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com