
09/09/2006
Ano 10 -
Número 493

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
Nise da Silveira e a Casa
das Palmeiras
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Os tempos são
tão vertiginosos e carregados de novas informações, tudo envolto hoje em
dia na estratégia da comunicação do entretenimento. Por causa dessa nuvem
de mediocridade, figuras de elevados serviços prestados ao Brasil e ao
próximo, mesmo sendo da segunda metade do século vinte ficam ocultas e
desconhecidas pelas novas gerações, intoxicadas de rock, celebridades da
TV e esportes radicais.
A Dra Nise da Silveira não foi uma celebridade da TV: é uma glória
nacional. Por certo muita gente da nova geração jamais ouviu falar seu
nome. Era uma psiquiatra brasileira, alagoana da gota. Frágil de corpo,
pequena e muito magra, tenaz como um tigre, lutadora, benfeitora precoce
no tratamento da doença mental. Antes disso foi, na juventude, militante
ativa do Partido Comunista. Ainda nos tempos de Vargas foi atirada na
prisão da Ilha Grande com outro grande nome do País o escritor Graciliano
Ramos, alagoano como a Doutora. Leiam Memórias do Cárcere.
Trabalhava ela em Hospital Público até hoje existente, o Pedro II, na
estação do Engenho de Dentro. Era tempo em que as internações, os choques
elétricos ou drogas pesadas de soníferos eram utilizadas no tratamento de
várias enfermidades mentais e também uma fase da psiquiatria em que a
maioria das famílias entregava os chamados loucos (uma injustiça) aos
então hospícios e os largavam por lá. Resultado: a piora. Alguns saíam do
manicômio apenas ao morrer. Vagavam anos a fio, de avental sujo, perdidos
pelos pátios e os labirintos do ego desestruturado.
A brava Doutora, aprofundou-se no estudo da esquizofrenia e a partir de
alguns anos descobriu a psicologia profunda do psicanalista Carl Jung,
contemporâneo e ao princípio discípulo de Freud e que depois enveredou por
outro caminho. O mais curioso é que o comunismo daquela época abjurava
tanto a psicanálise, como Jung, pelo fato de não tentarem explicar o mundo
somente pela luta de classes, embora essa existisse como ainda existe.
Nise aprofundou-se no estudo e no trabalho. Anos depois foi à Suíça.
Mostrou a Jung seus trabalhos e dele ficou não apenas divulgadora como,
além de amiga e correspondente regular, ela se aprimorou na forma de
tratamento da esquizofrenia, usando um binômio considerado utópico pela
maioria dos médicos de então: o binômio era tratar os pacientes caso a
caso (nada de generalidades) através da terapia artística e muito amor. Da
terapia artística decorreram condições para algumas curas ou, pelo menos
alívio e melhora. Além disso, e embora a finalidade não fosse esta, muitos
pacientes antes afundados na alienação da esquizofrenia deixaram obras
hoje de fama internacional pela qualidade e expressividade. Hostilizada no
Hospital, resolveu abrir uma clínica privada pequena, a que chamou de Casa
das Palmeiras, sem finalidades comerciais ou lucrativas. E na qual toda a
Direção é voluntária. Isso, há 50 anos! A Casa das Palmeiras de lá até
aqui, mesmo reconhecida como obra da mesma importância (em tamanho menor)
do Museu das Imagens do Inconsciente (existente no Hospital Pedro II e
também obra dela), nesses 50 anos acumulou um acervo de trabalhos, de
inestimável valor para a ciência, a psiquiatria, a psicologia, a arte e a
cultura. Pois foi nesse acervo, de valor comercial nenhum, e de alta
importância histórica e antropológica que alguém (ou “alguéns”) tocou fogo
na madrugada de domingo último.
Destruir um acervo como este é igual a incendiar uma floresta. Percebem a
razão da minha dor?
(09 de setembro/2006)
CooJornal
no 493
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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