
11/11/2006
Ano 10 -
Número 502

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
Aquele amor em segredo |
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Percebo aonde vai. São três e vinte da tarde e o passo seguro, uma pressa
sentida, óculos escuros, a calça comprida branca não é justa demais, mas
suficiente para demonstrar resistências cárneas de seus 40 e poucos anos.
Já sei aonde vai: encontrar-se com seu amor.
A mulher que tem um amor em segredo não é que se esconda, mas anda na rua
como se não olhasse para os lados, com medo de que os lados olhem para
ela. O passo é firme. Há uma pressa contida para não despertar
desconfiança. Há sempre uma seriedade grave na mulher que vai encontrar o
seu amor. Parece prever os crimes e dores embrulhados em toda verdadeira
história de amor, ao lado das felicidades prometidas e do milagre da
reciprocidade sensual. Ela parece zangada, mas tudo aquilo é defesa para a
fragilidade e a consciência antecipada das conseqüências do amor.
Sobretudo quando maduro.
Aquela mulher de quarenta e poucos anos, ainda bela e rígida, a carne
alegre, os impasses vividos, é uma figura fascinante. Um casamento
fracassado? Filhos adolescentes que muito lhe exigem de cuidado e atenção?
Sua mãe idosa e sábia a desaconselhar-lhe a aventura? O medo de que o
marido (será ela casada?) tudo descubra? E o flagrante? Toda essa tragédia
doentia, verdadeira ou não, pulsa na mulher severa que vai célere ao
encontro do homem amado ou desejado, em horas perdidas, migalhas de tempo
que as horas esquecidas das tardes e a felicidade almejada lhe permite
entre sobressaltos e sustos.
Percebo-lhe o fremir contido a pulso, mas taquicárdico, ao vê-la no passo
decidido e no jeito discreto de caminhar seguro, indiferente aos
transeuntes, porque a mulher apaixonada só sabe de seu amor. Ela é o
monotema de tudo o que cala e não do que fala. O amor em segredo de mulher
pulsa silencioso mas gritante por dentro de tudo o que faz e diz. Tem a
mesma obsessão recôndita e irrevelada dos suicidas antes da consumação do
ato. É um ser de susto e coragem notável.
É ela que vejo passar, com muitos rostos diferentes nas tardes esquecidas,
o passo firme e ar de poucos amigos, como se a rua fosse uma demorada e
inoportuna passagem, irritante e inacabável intervalo até o momento do
encontro redentor. Sinto-lhe o latejar da alma e do sangue e torno-me
admirador de sua decisão. Por certo ela deve ser bem mais corajosa do que
o ser amado. Deve enfrentar decisões para ele impossíveis por causa da
falta de coragem comum aos homens. Lá vai ela em seu passo vencedor de
guerreira, disposta a tudo, até morrer, por uma hipótese de felicidade e a
incerta impressão de que tudo pode acabar de repente.
(11 de novembro/2006)
CooJornal
no 502
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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