
16/12/2006
Ano 10 -
Número 507

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
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Artur
da Távola
O PRANTO DE HELOÍSA HELENA
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A Senadora
Heloísa Helena despediu-se do Senado com enorme emoção, e todos os
jornais, rádios e televisões disseminaram pelo Brasil o seu comovente
pranto. Alguns vetustos Senadores até choraram com ela.
Convivi oito anos com Heloísa no Senado e ficamos muito amigos, apesar de
posições políticas antagônicas. Porém não é de política que desejo falar.
É da pessoa que se transformou, com um só mandato, em figura nacional,
comandante de um Partido, candidata a Presidente da República. Tudo isso
em decorrência de suas principais virtudes: absoluta honestidade pessoal;
grande intensidade interior, filha de suas verdades. Tem a sinceridade
como característica.
Incorruptível, algo de demasia injusta em suas palavras, trabalhadora como
poucos e poucas parlamentares, estudiosa do Brasil, a corporificação da
paixão pela justiça social e pelo País. Suas demasias (ou, se preferirem,
defeitos) decorrem de um vício de origem do PT: considerar-se com o
monopólio da dignidade, o que sempre coloca seus militantes na posição
supostamente superior de poder julgar os demais e as posições políticas
dos outros como necessariamente inferiores. Repetiu os cacoetes da
esquerda antiga, da qual é militante e que o tempo se encarregará de
temperar. O outro de seus erros está mais para uma injustiça: não soube
avaliar com equilíbrio o Governo FHC. Em vez de críticas, fez-lhe
injustiças pessoais, políticas e agressões destemperadas.
Agora o paradoxal: fora das diatribes da tribuna, é uma das criaturas mais
doces e meigas com quem se pode contar. Uma sentimental da melhor cepa
humana e feminina. Alegre, franca e carinhosa como poucas. Eu brincava com
ela, ao dizer que, quando subia para discursar, baixava-lhe um Exu
daqueles terríveis e que eu visualizava o momento da incorporação. Ela ria
e dizia: “Isso de Exu é coisa de vocês lá do Rio que têm essas manias”.
Heloísa é delicada pessoalmente, adorável para conversar, leva tudo a
sério, mas fica uma tarasca (como se diz na Bahia) com pessoas
sabujas e desonestas. Deu ao Brasil uma lição de coerência, raríssima
dentro da sonsice média dos comportamentos políticos. Jamais baixou a
cabeça para as tentações do poder, jamais bajulou, jamais negou a si mesma
e, na hora exata, ficou com a coerência de sua pregação. O segmento
leninista do PT expulsou-a de modo brutal. Ela era uma ameaça para todos
aqueles que quase acabaram com o Governo Lula... Amava o Senado e o que lá
fazia. Vai sofrer não pelo poder que não busca para si, mas pela perda de
instrumentos de luta. Em compensação vai modernizar a sua visão do que é
ou deva ser a verdadeira esquerda contemporânea. E vai voltar melhor
ainda, se Deus quiser.
O Brasil lhe deve cumprimentos e gratidões. E daqui, modestamente, tento
representar todos os que a admiram. Mesmo quando discordam.
(16 de dezembro/2006)
CooJornal
no 507
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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