03/02/2007
Ano 10 - Número 515

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA

 


 

 

 

Artur da Távola



CARTA A ALGUÉM QUE ME ESCREVE
 

É fim de tarde. Ao longe e ao perto, brasileiros se unem num basta à violência. Solidário, no silêncio de meu gabinete, creio que escrever a você é também um aceno de paz, pois pressinto essa instância como parte abençoada de seu interior.

Sabe por que lhe escrevo menos que deveria? É porque fico a esperar o momento adequado, o texto certo, muito a dizer. A sua seriedade e talento, de repente, estavam a exigir de mim uma impostação que (dei-me conta hoje) estava equivocada. Ora, será somente quando eu tiver algo de importante a dizer, é que devo dirigir-me à pessoa que em seu mistério trouxe presença de distinção e luz? Não! Amizade é para exercitar espontaneidades e dar-se ao delicioso e inconseqüente expediente de simplesmente comunicar-se, sem nada de importante e significativo para dizer. Ao contrário: é o leve agrado do compartir existência e presença de quem se admira e que se quer bem.

Sabe? Esses dias foram de intensidades dolorosas. As últimas semanas no Brasil e no mundo, com a violência e acontecimentos trágicos. O desespero de pessoas presas em um ônibus incendiado por pura maldade. A morte de um amigo de meio século, espécie de meu irmão mais velho. A mim, que fui órfão de pai e fiquei filho único pela morte prematura de minha irmã de nome lindo, Eleonora, e olhar de santa, esses sentimentos da infância igualmente me povoaram a lembrança.

Nada disso, Távola! Busca ser simples, direto e afetuoso com as pessoas com quem consegues proximidade de alma. É tão grande a incomunicação humana que, quando ela se dá, é como comer manga: sim, depois dos quarenta anos, disse eu certa vez em uma crônica, não se pode perder qualquer oportunidade de comer manga. A vida vai encurtando e cada manga deixada de lado não volta. É perda gravíssima... Como a amizade dos afins. Cada afinidade não vivida atenta contra o Bem.

Falas hoje em manga, outro dia aludiste ao torresmo! Será que por tuas restrições alimentares estás a confundir sabores com afetos, Távola?

Mas afeto e admiração têm sabor. O que diz você, sábia escritora?

Enfim, acho que logrei a leveza e a superficialidade deliciosa de quem quer apenas se comunicar e, não, desempenhar o papel intelectual ou apenas de mais velho, vivido e experiente, que, às vezes, por engano, me atribuem.

Ainda há uma semana vi milhares de pessoas de branco a fundir o compromisso da paz. Isso sim muda o Brasil e o mundo. Não o ódio, que parece sangria desatada. Já, na verdade brasileira, só um processo educativo, permanente, igualitário e democrático reverterá o quadro.

Que bom! Estou dispersivo, mas espontâneo. Agradeço-o a você.

Sempre mais,
Artur da Távola




(03 de fevereiro/2007)
CooJornal no 514


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com