
10/02/2007
Ano 10 -
Número 515

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
Casa de Cultura Artur
da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
email:
turda@globo.com
Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio
Roquette Pinto, 94,1 FM.
Programa Esta Bossa Sempre Nossa
Domingo das 9h às 10h na Rádio Roquette Pinto, 94,1 FM.
Assista
"Quem Tem Medo da Música Clássica?", pela TV Senado
- Sexta-feira, às 24 h.
- Sáb, às 10, 18 e 24 h.
- Dom, às 10, 18 e 24 h.
"Repertório" pela TV Cultura, de São Paulo
- segundas, quarta e sextas-feiras depois da meia noite, perto da uma da manhã.
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Artur
da Távola
GAVETA DE MALUCO
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Pertenço a essa
estranha espécie existente entre os mortais que tem a mania de guardar
inexplicáveis trecos nas gavetas. Admiro os cidadãos de mesa limpinha que
têm coragem de jogar fora papéis, orações no verso de santinhos, vidros
velhos de homeopatia, marcadores de livros com mensagens edificantes,
benjamins para alguma utilidade, fio dental, radinhos de pilha velhos.
Eu não.
Acumulo-os por motivos misteriosos pois reconheço inexistir qualquer
lógica ou coerência no ato. Há algo que dói ao jogar fora qualquer
resultado do trabalho humano. E na dúvida, guardo. Fios velhos, pilha que
não gastaram até o fim, clips enferrujados, um olho de boi contra a inveja
e o mau olhado, um pente de osso reserva do principal que anda no bolso de
trás, dois ou três comprimidos (com validade vencida...) para eventual
acidez estomacal, uma régua velha rachada, os elásticos que recebi e não
joguei fora, bloquinhos, uma prece milagrosa para Santo Antonio de
Categeró que diz : “Oh Santo Antonio de Categeró, estendei Vossas mãos
agora mesmo sobre mim, livrando-me dos desastres, da inveja e de todas as
obras malignas”.
Lá podem ser encontrados, ademais: um caderninho com sugestões de remédios
da flora que possivelmente nunca usarei mas me traz segurança tê-lo pois
apresenta, entre tantas outras maravilhas curativas: a pomada cipó
azougue, a pomada Calêndula, palavra que ademais é linda e fico a repetir,
Calêndula, Calêndula, e aconselha ainda o afamado colírio de cinerária
marítima que com um nome assim elegante deve possuir formidável poder de
sarar. E um livrinho pequeno, de capa amarela, que há muitos anos recebi
do trovista mineiro Waldemar Pequeno onde posso ler entre quarenta outras,
esta graciosa trova:
“De todos os bens do mundo,
jamais se alcança o melhor.
Mas dos pesares da vida,
O nosso é sempre o pior.”
Salve as minhas bugigangas! Mania de reter o que me parece latejar de boas
intenções, espécie de “ter poético” ao qual raramente recorro mas do qual
chego a sentir a pulsação de significados ocultos e meio mágicos. Coisa de
doido, de poeta ou de velho mesmo.
(10 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 515
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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