
12/05/2007
Ano 10 -
Número 528

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
Casa de Cultura Artur
da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
email:
turda@globo.com
Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio
Roquette Pinto, 94,1 FM.
Programa Esta Bossa Sempre Nossa
Domingo das 9h às 10h na Rádio Roquette Pinto, 94,1 FM.
Assista
"Quem Tem Medo da Música Clássica?", pela TV Senado
- Sexta-feira, às 24 h.
- Sáb, às 10, 18 e 24 h.
- Dom, às 10, 18 e 24 h.
"Repertório" pela TV Cultura, de São Paulo
- segundas, quarta e sextas-feiras depois da meia noite, perto da uma da manhã.
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Artur
da Távola
LEMBRANÇAS DE DONA MAGDALENA
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A memória me traz alguns fatos de 1991,
quando minha mãe partiu para o Reino dos Esplendores. Enquanto aguardava
prepararem o corpo, derradeira maquiagem de uma “atsef” (festa ao
contrário) – eu não quis ver –, recebi seus amigos e amigas a chegar, e os
parentes: ela havia sido um ser humano admirável e admirada por quem a
conhecia. Dona Magdalena!!! Coloco três pontos de exclamação ao
mencionar-lhe o nome, consigo ainda ver-lhe o porte altivo e sua
fragilidade de mulher forte.
A morte tem o condão de revelar o valor de uma vida em segundos, e cada um
desses segundos é portador de alguma lição que ela gostava de dar e dava,
mesmo sem pretender, pela dignidade, sobriedade e solidão, vale dizer,
pelo exemplo.
Não estou aqui, porém, para elogiar minha mãe porque morreu há quase
dezesseis anos, mas para dizer que, no recato de minha dor e na
interiorização do meu sentir, mais que todos, podia eu pensá-la com
orgulho e egoísmo: sim, egoísmo, porque o que era teor de dona Magdalena
em caráter e exemplo, agora me pertenceria mais que a todos. Fui seu
cúmplice toda a vida, e aprendi as admirações que lhe tributei. A morte
nos permite essa apropriação sem inventário.
Meses antes, vidente me vaticinara que iria herdar forças de minha mãe,
quando ocorresse a sua passagem. Tudo isso me passava rápido na mente,
enquanto aguardava a maquiagem do corpo para o féretro. Admiração por sua
vida dedicada em doses certas, primeiro aos seus, depois ao trabalho.
Medito na minha incapacidade de atender com atenção aos próximos a quem
tanto quero, ocupado que sou pela vida pública. Obsessão de servir ao
geral, com imperdoável falta de cuidado com os de perto. Nisso não a soube
imitar. Mesmo assim, é herança ética. Por outro lado, naquele distante
1991, via-a feliz por saber-me homem público, e recordo o conselho: “Fique
contra e lute, porém jamais faça ataques pessoais”. Isso se transformou
numa realidade em minha vida. Logo ela, tão valente e brigona em jovem,
viúva, gaúcha braba e brava, sábia e lutadora, a sugerir-me a temperança
na política e no jornalismo, isso num país de política que só se destaca
pelo seu lado doentio.
No momento em que escrevo esta crônica, como em quase todos os dias de
minha atual maturidade, sua imagem retorna a mim, conselheira: “Faça o que
lhe cabe, não espere compreensão, agradeça o que chegar e tenha paciência,
que o reconhecimento virá, sobretudo quando sua atual vaidade não precisar
mais dele e bastar-se com o que faz e com o que é”.
(12 de maio/2007)
CooJornal
no 528
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
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