
19/05/2007
Ano 10 -
Número 529

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
Casa de Cultura Artur
da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
email:
turda@globo.com
Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio
Roquette Pinto, 94,1 FM.
Programa Esta Bossa Sempre Nossa
Domingo das 9h às 10h na Rádio Roquette Pinto, 94,1 FM.
Assista
"Quem Tem Medo da Música Clássica?", pela TV Senado
- Sexta-feira, às 24 h.
- Sáb, às 10, 18 e 24 h.
- Dom, às 10, 18 e 24 h.
"Repertório" pela TV Cultura, de São Paulo
- segundas, quarta e sextas-feiras depois da meia noite, perto da uma da manhã.
|
|
Artur
da Távola
O PROBLEMA DO ABORTO NÃO ESTÁ APENAS NELE
|
 |
O Presidente Lula, em sua entrevista
coletiva de há dois dias (a segunda em cinco anos), disse que o Governo
nada mandará ao Congresso sobre o aborto. Fez muito bem. O assunto nada
tem a ver com a Presidência. É assunto do Congresso, do foro íntimo
individual e da sociedade.
Tenho, pessoalmente, a convicção de que tanto assiste razão aos que são
contra o aborto, quanto aos que são a favor. No mundo existem e resistem
questões insolúveis, e esta é uma delas. Pondero, porém, que a legislação
brasileira já circunscreveu esta matéria há alguns anos, e bastante bem. É
só aperfeiçoá-la. A discussão foi exaltada pela mídia devido à presença do
Papa no Brasil. Diz a Lei brasileira que podem submeter-se ao aborto
mulheres grávidas por estupro, caso desejem, e nos casos de imperfeição
genética que deverá provocar a morte do feto, atestada por (creio) cinco
médicos especialistas. Falta apenas acrescentar os casos (já
diagnosticáveis) de fetos que apresentam ausência de função cerebral (não
sei o nome científico dessa enfermidade).
Se o Brasil encetasse a valer um grande projeto de planejamento familiar,
como está disposto na Constituição (por acaso, artigo que teve redação
minha, aprovada em plenário em 1988) e, não, de controle da natalidade
pelo Estado (que é ditatorial), essa questão não existiria com a
dramaticidade com a qual ocorre. O cerne do problema do aborto está a
rigor, fora dele. Está na procriação inconseqüente. E só o planejamento
familiar, livre e consciente, pode atenuar a tragédia.
Isso posto e aplicado e dentro de uma política educacional de forte teor
social e a prazo de médio a longo, as demais formas de aborto realmente
são um assassinato. Como crime também é morrerem milhares de mulheres por
aborto acontecido em clínicas secretas. Mas esta trágica situação também
está fora do cerne da questão do aborto. É do âmbito policial. E da
precária vigilância sanitária.
Não há, portanto, formas perfeitas de resolver esse conflito insolúvel.
Há, sim, formas provisórias ou substitutivas. A adotada na legislação
brasileira é uma delas: eternamente imperfeita, mas razoável. O aborto
fora dos casos permitidos por Lei, repito, é realmente um assassinato. Por
outro lado, impedir qualquer tipo de aborto é exagero e perversidade
contra o feto e contra as mães, estas principalmente. Porém, mesmo nos
casos em que a Lei permita o aborto, estou convencido de que se a mãe não
o quiser, ele não deve ser feito. Dela é a última palavra.
Sei que vou desagradar os radicais de cada lado. Mas o bom senso jamais
será entendido por quem tem posições polares e intransigentes.
Principalmente quando ambas possuem argumentos a favor. Viver é enfrentar
enigmas.
(19 de maio/2007)
CooJornal
no 529
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
www.arturdatavola.com
|
|