
05/04/2008
Ano 11 -
Número 575

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
Casa de Cultura Artur
da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
email:
turda@globo.com
Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio
Roquette Pinto, 94,1 FM.
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Artur
da Távola
O
CONTÍNUO É SEMPRE UM CRAQUE
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Só quem vai a um banco descontar
um cheque banal sabe o inferno que é. Os bancos deixam um caixa funcionando
para dois caixas fechados.
Os balanços revelam lucros formidáveis. Nem por isso melhoram os serviços.
Sabem por quê? Porque rico não vai ao banco. Fala direto com o gerente. Quem
vai é o contínuo ou Office-Boy, nome pomposo e americanizado. Ah! Essa nossa
mania de imitar os gringos. De Office-Boy aqui no Brasil passou-se para Boy,
mas, felizmente, hoje já se fala "contínuo", palavra bem mais difícil de
pronunciar, mas nossa.
O contínuo é um craque, quando é bom. A vida é tão complicada hoje em dia,
que, sem esse cara "safo", ligeiro, paciente, sagaz, qualquer trabalho se
torna impossível. Vá alguém largar o trabalho e cumprir suas obrigações na
rua. Seu trabalho irá para as cucuias. A vida normal é impossível sem o
contínuo. E ele atua na menos considerada das atividades. Até parece político:
pode ser bom e trabalhador, mas paga pelas exceções realmente lamentáveis que
existem na categoria.
E é assim com ele. Sempre culpado das coisas que não vão bem, e jamais
lembrado pelos galhos que já quebrou e ainda ser recebido com a pergunta: "Por
que demorou tanto?"
Na hora dos cortes de pessoal, o contínuo é o primeiro que dança. Razões de
economia. E o garoto pode ser inteligente, e, potencialmente, um bom
profissional. Como não teve, porém, a possibilidade de estudar, raros são os
que se preocupam com o futuro dele, salvo eles mesmos ou seus pais, e um ou
outro chefe bem intencionado. E se o contínuo quiser estudar para subir na
vida, será, sempre, com mais dificuldades que os de sua idade: à noite, em
colégios escuros e desleixados, após um dia de trabalho, sem jantar, voltando
tarde para estar no outro dia cedinho no batente, pois o patrão gosta de um
café logo que chega...
Os contínuos realizam o anônimo e indispensável papel de ligação interna entre
os serviços, e entre estes e o exterior. São, portanto, agentes de
comunicação, cada vez mais necessários na confusa engrenagem montada pelo
homem a guisa de organização. A eles, nem os computadores hão de derrotar.
Ainda bem...
(05 de abril/2008)
CooJornal
no 575
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
turda@globo.com
www.arturdatavola.com
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