12/04/2008
Ano 11 - Número 576

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA


Casa de Cultura Artur da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
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Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio Roquette Pinto, 94,1 FM.



 

 

 

Artur da Távola



NO TEMPO EM QUE CHUTAR ERA PIMBA


 

Hoje, quando as transmissões de futebol via rádio são tão vivas, dinâmicas, repletas de informações até de fora dos estádios, sons eletrônicos, ecos, reverberações; hoje, quando ouvir esporte pelo rádio é até um prazer pela quantidade de notícias, entrevistas, coberturas de clubes, fico a recordar alguns mestres do passado e me vem à mente, entre estes, o Raul Longras, que morreu um tanto esquecido, mas cujo estilo de narração está registrado em estudos atuais.
Raul Longras foi, talvez, o mais povão de todos os narradores. Era um contestador. E, enquanto alguns outros se esmeravam em frases redondas e empoladas, com esses e erres supercaprichados, o Longras introduzia o esculacho, a forma carioca de falar e a mania de gozar a tudo e todos, como se estivesse transmitindo da arquibancada. Uma delícia!

O "PIMBA", por exemplo. É muito mais expressivo gritar "PIMBA" do que dizer: "Zizinho abre caminho, limpa o lance e acerta um petardo", como era comum à época chamar de petardo ao chute forte. "Pimba" sintetizava tudo e era muito mais ameaçador.

Igualmente chamar as redes de véu da noiva ou de filó era outro achado de Longras. Muitos estudiosos da psicologia humana comparam a simbologia do futebol com a do ato sexual. O gol seria a grande penetração, o caminho para o orgasmo, dizem os doutos. Ligar a baliza, a meta, o alvo com a figura da noiva, e o gol como uma espécie de desvirginação não deixa de ser altamente expressivo. Pois "pimba" simboliza tudo isso...

Longras era a presença do bom humor e da gíria carioca, onde só havia contração, fala solene ou, então, os maus bofes das broncas formidandas do Ary Barroso no ar. Nós, que fomos jovens desportistas há mais de cinqüenta anos, por certo sentimos bem mais que outras gerações a saudade desse gostoso tipo de rádio pré-televisão. Recordá-lo traz um pouco da infância que já vai longe e, que, de vez em quando, tanto dói de uma dor que faz bem.
 


(12 de abril/2008)
CooJornal no 576


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
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www.arturdatavola.com