
26/04/2008
Ano 11 -
Número 578

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
Casa de Cultura Artur
da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
email:
turda@globo.com
Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio
Roquette Pinto, 94,1 FM.
|
|
Artur
da Távola
A DOR DO AMOR QUE
SE ACABA
|
 |
Todo casamento que "acaba" já se
acabara muito antes. O amor é um sentimento tão forte que, até para admitir o
seu término, precisa de tempo. Quando algo estoura ou vem à tona é porque de
há muito borbulhava, subterrâneo. Aceitar que o amor acabou é tão difícil como
admitir a sua existência!
Fico a pensar nos quilômetros de discussões com as quais milhares de casais
disfarçam o amor que começa a terminar, ou já morreu e começa a tresandar.
Penso na dor sorrateira e covarde do amor que começa a acabar. Penso no
sentimento de perda que se instala até nas relações que se tornam frias e
distantes. Sofro por pessoas que estão trilhando o doloroso caminho da
descoberta dos impasses com o ser amado; as que estão descobrindo defeitos,
desencontros, impossibilidades de encaixes e de suplementação nas relações.
Penso nos que estão tentando gostar, já não mais conseguindo. Compadeço-me dos
que colocam flores e esparadrapo na própria decepção ou no cansaço de suas
relações rotinizadas, robotizadas, endurecidas, cristalizadas, congeladas.
A dor do amor que não se realizou gera doloroso sentimento de perda. A perda
prescinde do amor. Até onde este não mais existe, ela dói e machuca. O
sentimento de perda transcende o amor. Talvez seja até maior, como sentimento,
que o amor, pois o sentimento de perda perdura, a despeito de haver acabado.
Sente-se a perda da pessoa a quem se amou e sente-se a perda do amor. O que
dói no amor que termina não é o fato de ter acabado. Nesse sentido é até
alívio. Dói o fracasso do que poderia ter sido; os cacos do que, mal ou bem,
foi construído em comum; é a contemplação da morte através da verificação da
existência de uma pessoa em nós e no outro que já não existe, que mudou,
transformou-se e cresceu ou apodreceu e piorou.
A gradativa aceitação da inexistência do amor é ferrugem existencial difícil
de ser aceita. Por isso o amor passado é dotado de muitas caras e, para se
proteger dessa ferrugem, admite crescer em outras direções, igualmente
prazenteiras: a da amizade, do carinho, da compreensão. Talvez.
(26 de abril/2008)
CooJornal
no 578
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
turda@globo.com
www.arturdatavola.com
|
|