
24/05/2008
Ano 11 -
Número 582

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA
Casa de Cultura Artur
da Távola - Portal e Web Radio, 24 horas no ar.
email:
turda@globo.com
Programa "Mestres da Música" Domingo às 12h na Rádio
Roquette Pinto, 94,1 FM.
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Artur
da Távola
A PERDA DO PAI
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A perda do pai: quem sabe vivenciá-la? Como
aceitar mortal e falível aquela pessoa grande, capaz de conseguir o
universo, logo ele, o provedor, abridor de caminhos pelos quais começamos
a passar medrosos?
A perda do pai é a retirada da rede protetora no momento do salto. E há
que saltar. É o roubo feito no exato momento em que estávamos a descobrir
o melhor do mundo.
A perda do pai é a entrada no lugar-comum, é começar a ser igual a todos
os que a sofrem, a ter os mesmos medos, as mesmas frases. É voltar a se
emocionar com o que se desprezava: datas, pequenas lembranças, objetos,
palavras e até com as manias dele que nos irritavam.
A perda do pai é o começo do balanço da própria vida, porque, enquanto
vivia, era mais fácil nele descarregar alguns fracassos e culpas.
A perda do pai é o início da significação. As palavras começam a fazer um
estranho e novo sentido.
A perda do pai começa a nos ensinar o valor do tempo: o que não fizemos, a
visita deixada para depois, o gosto adiado, a advertência desdenhada, o
convite abandonado sem resposta, o interesse desinteressado...tudo isso
volta, massacrante, cobrando-nos o egoísmo. Nosso primeiro exame de
consciência verdadeiro começa quando o pai morre. Nosso encontro com a
morte inaugura-se com a dele. Nossa primeira noite sem proteção
consciente, dá-se quando ele já não está. E nunca somos mais sós que na
primeira noite em que já não o temos. O pai é o mistério enquanto vida e a
revelação depois de morto. Num segundo, entendemos tudo o que, durante a
vida, nele nos parecia uma gruta de mistérios. Seus objetos ganham vida,
suas comidas preferidas passam a ter mais gosto, suas frases adquirem o
sentido que só o tempo e a repetição outorgam às coisas.
A perda do pai dói muito! Isso é tudo. Para que querer saber por quê? O
pai é o eu no outro. É dois em um, santíssima dualidade a proclamar o
mistério e a glória de existir, dívida que com ele temos, sem nunca
conseguir pagar, o que o faz por isso mesmo, sempre, muito melhor do que
nós...
(24 de maio/2008)
CooJornal
no 582
Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
turda@globo.com
www.arturdatavola.com
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