03/10/2008
Ano 12 - Número 601

ARQUIVO
ARTUR DA TÁVOLA


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Artur da Távola



A vida começa aos 50


 

Hoje passou por mim, talvez vinda de alguma piscina, uma saudável e sacudida mulher na casa de seus cinqüenta e tantos anos. Alegre, catita, sedutora. Essas mulheres assim repletas de seiva, vejo-as em plena atividade: festas, serestas, bingos, esportes, namoros e casamentos.

Qualquer mulher que hoje esteja entre os 50 e os 65 anos viveu uma das fases mais difíceis da acelerada transição destes últimos 30 anos, no mundo, no ser, nas sociedades. O mundo já havia mudado, quando as mulheres dessa geração assumiram uma série de compromissos no campo sentimental, amoroso, sexual, profissional e matrimonial. Mas os indícios da mudança ao alcance delas eram pouco nítidos. Elas podiam até ter uma vaga percepção de que algo começava a ser diferente, mas os apelos do ’’statuquo-ante‘‘, ou seja, da situação anterior, eram nítidos, fáceis de ver, de tocar, de materializar.

Então elas casaram de um determinado jeito: tiveram filhos com uma certa visão das coisas; estudaram e trabalharam, conciliando terríveis dilemas; foram fazer análise, cansaram-se, desesperaram-se. Esperaram os filhos crescer e aí voltaram a estudar, acomodaram-se umas, rebelaram-se outras, ambas a sofrer. Enfim, o panorama é vasto. Importa dizer que entre os compromissos que assumiram e tudo o que descobriram depois havia um abismo.

Este abismo assumiu (assume) a forma de angústia ou de impasses terríveis. Algumas sucumbiram às maneiras de ser anteriores; outras lutaram para se adaptar aos novos valores, mas a formação antiga freou tudo; terceiras se descontrolaram e caíram numa espécie de desespero existencial em busca do tempo perdido, que igualmente deixou sofrimentos muito fundos; quartas tentam – tentaram – um meio termo morno, ou seja, o equilíbrio possível, mas quase secaram, de frustração.

Não é fácil ser formada com idéias de tempos que acabaram e ter que viver depois que eles acabaram, embora aparentem ainda dominar a sociedade.

Não é fácil, mas elas conseguiram: desbravaram caminhos, superaram barreiras, venceram dificuldades para se permitirem viver, existir, e aí estão, nos dando um ’’show de sobrevivência’’, abrindo novamente os caminhos para outras gerações, começando a vida aos 50




(03 de outubro/2008)
CooJornal no 601


Artur da Távola
escritor, poeta, radialista
RJ
turda@globo.com
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