
14/07/2007
Ano 11 -
Número 537
 |
|
Augusto Boal
SOBRE NELSON
RODRIGUES
|
 |
Quando entrei para a Escola Nacional de Química na
Universidade do Brasil, fui convidado para disputar o cargo
de Diretor Cultural. Eu não tinha experiência para disputar
eleições, ia perder na certa, mas meus colegas me
asseguravam que não: eu seria o único candidato e ninguém
queria essa vaga.
Ser Diretor Cultural do Diretório Acadêmico da Escola
Nacional de Química era assim como ser Presidente da
Comissão de Direitos Humanos de Três Torrinhas, cidade do
interior de São Paulo, ao lado de Bauru – cargo que nenhum
partido político de bom senso disputa.
Aceitei confiante e tive um susto: quase perdi! Ninguém
se lembrava de que esse cargo existia e que, para ele, havia
um destemido candidato: eu! Na hora de votar, votavam para
todos os postos, mas deixavam esse cargo em branco.
Fui eleito por um a zero. Não me perguntem quem votou
em mim: o voto é secreto.
Eleito, tinha que trabalhar. Verba, não havia. Meus
colegas sugeriam que eu fosse pedir entradas gratuitas para
balés e óperas no Municipal, Jaime Costa, Alda Garrido,
Dercy Gonçalves e revistas da Praça Tiradentes, com
mulheres nuas.
Eu queria mais. Como gostava de teatro, queria
conhecer gente de teatro. Como escrevia peças, quis conhecer
Nelson Rodrigues.
Eu tinha dezoito anos magros, tímidos e assustadiços.
Fui à redação do seu jornal com as pernas tremendo e os
dentes ritmados, e o convidei para fazer uma conferência.
- Conferência para químicos? O que é que a química tem
a ver com o teatro?
- Químicos só, não: vai vir todo mundo. E veja bem,
química tem muita relação com teatro, sim, mas isso eu
explico depois. Por que, sabe, desde os tempos da alquimia...
Idade Média, essas coisas... Bom, deixa pra lá.
- Onde?
- Na Escola não dá, porque fica longe, na Praia
Vermelha, e virá tanta gente que não haverá lugar no nosso
pequeno auditório.
- Tanta gente?
- Claro: eu espero umas quinhentas pessoas.
- Quando?
- Na semana que vem, pode ser?
- Só se for à tarde. Seis horas.
- Melhor ainda.
Saí delirante. Como estudante de Química não lembro
se ia bem nos estudos, mas como Diretor Cultural eu já me
revelava um gênio. Nelson Rodrigues na Química? Melhor do
que isso, só se fosse Getúlio Vargas se suicidando na
Odontologia, com o motor no coração!
Consegui de graça um auditório no Serviço Nacional de
Teatro, menor do que eu esperava, tinha apenas 300 lugares,
mas quem chegasse atrasado que se sentasse no chão dos
corredores, quem manda chegar tarde?
Ficamos esperando de pé, Nelson e eu. Seis e quinze:
apareceu o primeiro espectador. Agora, sim, viria a turba, a
massa, as multidões ansiosas para ouvir as palavras do
mestre. Mas veio apenas o segundo espectador perguntando
se era mesmo ali, se ainda não havia começado ou já tinha
acabado. Veio o terceiro. Vinham um a um, todos
cabisbaixos. Nelson me olhava.
- Quanta gente você espera?
- É o trânsito, sabe como é... O Rio de Janeiro é assim
mesmo, sempre foi assim. Mania de carioca chegar atrasado.
A gente fala, mas não há meio!
Quatro, cinco pessoas! Oba, um casal de namorados
abraçados: sete.
Nelson me olhou:
- Você não acha melhor a gente fazer essa conferência
ali no Vermelhinho?
Era o café que ficava em frente.
- Por que no Vermelhinho?
- Porque, enquanto eu faço a conferência, nós podemos
tomar uma média com pão e manteiga.
Quando já tínhamos quase, quase uma dúzia de
espectadores, Nelson começou a sua conferência e eu
terminei a minha carreira de Promoter.
Ficamos amigos, apesar do fiasco. Tive coragem de pedir
que lesse uma peça minha e ele não só a leu, mas escreveu
em cima do meu texto as suas sugestões. Leu outras peças
minhas e eu as dele, que ele me dava em cópias de papel
carbono azul, quase ilegíveis: a cópia que me dava era sempre
a quinta que ele batia com força na sua velha máquina de
escrever, mas a minha imaginação admirativa decifrava as
palavras diáfanas.
O principal conselho que me dava e eu me lembro bem,
era: - “Deforma!”
Apesar de escrever, mais tarde, uma coluna intitulada
“A Vida Como Ela É”, Nelson me aconselhava a deformar a
realidade como ela não era, ou, pelo menos, mostrar a minha
visão da realidade – fugir da fotografia.
Tinha razão: teatro não é a reprodução do real, é a sua
transubstanciação. Arte é Metáfora, não cópia servil.
Éramos amigos especiais. Grandes amigos psicológicos,
digamos assim, e ferrenhos adversários ideológicos. Em
política, Nelson era um carinhoso inimigo irreconciliável.
Um dia, bem mais tarde, quando viu o Vianinha –
Oduvaldo Viana Filho – fazendo propaganda política na praça
pública, escreveu que o nosso amigo e seu adversário, lhe
inspirava tanta ternura que tinha vontade de lhe estender a
mão com um pouco de alpiste para que comesse, tão magro
estava, tão passarinho parecia, tão inofensivo trinando
slogans.
Nas vezes em que foi ao Teatro de Arena quando fizemos
uma temporada no Rio de Janeiro em 1961, vinha,
conversava, nos espetáculos ria muito e se emocionava nas
horas certas, conforme a cena. Gostava dos nossos
espetáculos, tenho a certeza, mas depois não os comentava
nunca.
Sentíamos afeto um pelo outro. O Arena inteiro sentia
afeto pelo Nelson, e o Nelson pelo Arena. Amizade tão
próxima e tão distante. Tão cálida e tão fria!
Quando fui preso, em 71, Nelson escreveu duas ou três
Crônicas para me inocentar – queria ajudar. Ele sabia que,
para me defender, tinha que mentir. Sabia que eu sempre
havia sido e seria sempre um homem político, um cidadão
político, um artista.
Como artista, inevitavelmente sou político como todos os
artistas, de esquerda ou de direita, e até aqueles que se
acomodam no muro da indecisão abstêmia. Nós, artistas,
falamos do mundo em nossas obras, cantamos, dançamos e
pintamos o mundo em que vivemos. Nossa arte, além de
sentimento e forma, é uma opinião ativa sobre esse mundo
que nos inspira e molda.
A isto se chama política: ter opiniões e agir em
conseqüência!
Nelson era meu amigo e mentiu por minha causa.
Obrigado, Nelson. Mas exagerou: não era verdade que eu só
falasse de teatro, todo teatro e nada além do teatro, como ele
escreveu. Não era verdade que tivéssemos ido juntos ao
velório de um amigo comum e que, diante do morto e da
viúva, eu continuava falando da minha próxima peça, da
minha próxima encenação e do meu próximo livro.
Sou obstinado, obsedado e obcecado pelo que faço, é
verdade, mas essa história de falar de teatro em funeral de
amigo íntimo, isso nunca foi do meu feitio, não era verdade, e
ninguém acreditou. Mas é verdade que Nelson era meu
amigo. Nisso eu acredito: ele deu provas.
Eu não sei ao certo o que é que Nelson não nos
perdoava, a nós da esquerda. Talvez nossa ingênua e juvenil
crença em duvidosos dogmas políticos que estavam em voga
naquela época. Talvez nossa inflexível rudeza, tão pouco
dialética quando discutíamos Dialética. Não sei. Mas nós,
isso eu bem sei, nós não lhe perdoávamos a amizade com os
ditadores.
Sei também como é difícil – tão difícil como necessário –
separar o amigo do homem público, a arte do artista, um
momento da vida, da vida naquele momento.
Eu penso que consigo fazer essa separação, pensando
que Nelson ia tão fundo mergulhado na alma dos seus
personagens que não chegava a ver a vida como ela de fato
era naquele tempo de poder fascista. Nelson via por cima,
onde pairava, e não descia aos calabouços.
Apoiando os militares, era como se Nelson pensasse em
falsos arquétipos platônicos sem correspondência no mundo
real, no qual o que importava era o Milagre Brasileiro e o
crescimento econômico, sem levar em conta a realidade
verdadeira de que esse crescimento só favorecia aos
poderosos, enriquecia os ricos e semeava pobreza, afastava os
miseráveis dos bens da vida. O verdadeiro e único Milagre
Brasileiro foi o de termos nós, a ele, sobrevivido.
Arquétipos platônicos, eu disse, não os Junguianos que
possam, talvez, existir no inconsciente coletivo e nas obras do
próprio Nelson, mas platônicos mesmo, no sentido grego:
pura especulação metafísica sem as sujidades da vida real.
Nós vivíamos nesta, vida suja; ele, naquela, imaculada.
Na realidade real, se a visse de perto – tenho certeza, ou
sonho, não sei -, Nelson abominaria o fascismo importado,
financiado e instruído pelo Imperialismo. Odiaria a injustiça,
as torturas, a violência do poder, odiaria a estúpida ditadura
assassina.
Ah, se ele soubesse... Se ele soubesse, ele a odiaria
talvez tanto como nós, ou quase.
Um dia soube, quando seu filho foi preso.
Tenho a certeza... ou sonho, não sei.
Só sei que quero sonhar.
Muito obrigado.
(14 de julho/2007)
CooJornal
no 537
Augusto Boal é
dramaturgo, ensaísta e escritor
RJ
|
|