04/08/2007
Ano 11 - Número 540

ARQUIVO
AUGUSTO BOAL


- Sobre Nelson Rodrigues

 

Augusto Boal

 

O LEGADO DE PAULO FREIRE


 

Na Babilônia, quase vinte séculos antes de Jesus Cristo, um homem observou uma maçã caída de uma macieira que rolava por um declive na ribanceira, e viu o que todos apenas olhavam: a maçã rodava tocando o solo pela circunferência. Só uma parte da sua superfície tocava o chão. O homem se deu conta daquilo que ninguém antes percebera: para rodar, a maçã não necessitava ser esférica - bastaria ser circular. E inventou a roda.

As rodas que vemos rodando pelo mundo, pelos trilhos, pelas velozes pistas, pelos mercados, em casa, na rua, foram inventadas por um gênio: um homem que viu o que todos apenas olhavam.

Outra maçã, séculos mais tarde, caiu bem na cabeça de Newton quando dormia embaixo da árvore. Qualquer um de nós teria dado um grito, feito uma imprecação, dito um palavrão do tamanho da nossa dor física e do galo na cabeça, teria amaldiçoado o reino vegetal. Newton, tranqüilo, viu o óbvio: "A matéria atrai matéria na razão direta das massas e inversa do quadrado das distâncias". É lógico, límpido e cristalino. Porque, se assim não fosse, a maçã não teria jamais caído na cabeça de Newton: seriam a Terra e Newton que teriam caído na maçã. Isso, hoje, é fácil de entender. Mas foi preciso um gênio para ver o que todos apenas olhavam.

Arquimedes, tomando banho de banheira, percebeu que sua perna tendia a flutuar. Coisa estranha! E, num lampejo, gritou - "Eureka!" Havia descoberto o óbvio: "Um corpo sólido mergulhado em um líquido recebe um empuxo de baixo para cima igual ao peso do volume de líquido deslocado". Nada mais elementar: não eram necessárias nem a banheira nem a perna de Arquimedes: qualquer sólido em qualquer línquido. Só que, antes, ninguém tinha traduzido, em teoria, a prática das pernas flutuantes. Todos os usuários de todas as banheiras, piscinas, lagoas, viam pernas flutuando, cabeças e troncos também, e achavam tudo muito natural, mas só Arquimedes deduziu a lei que regia tais fenômenos.

Assim são os gênios: descobrem ou inventam o óbvio que ninguém vê. Assim aconteceu com Paulo Freire: descobriu que o "vovô absolutamente não viu o ovo", nem a "vovó viu a ave", mas, ao contrário - com certeza certa! - o pedreiro viu a pedra, a cozinheira o feijão, e o lavrador a enxada. O operário e o camponês não viam o salário, as férias, o direito à escolaridade dos filhos, à saúde. O trabalhador não via a hora de descansar. O faminto, a hora de comer. O povo, a hora da redenção.

O ato de aprender a ler é aprender a pensar, e pensar é uma forma de ação. Assim, apesar de vovôs e vovós das antigas cartilhas serem dignos de todo respeito, aves e ovos dignos de todo cuidado, o camponês precisa saber como se escreve o nome da foice com que lavra a terra, o pedreiro o nome do tijolo com que constrói a casa, a cozinheira os nomes com que condimenta o feijão e a farinha.

Desenhando em letras e palavras a dor que o pobre sentia na carne, - mas sem esquecer os desenhos do sonho e da esperança! - Paulo Freire inventou um Método, o seu, o nosso, o Método que ensina ao analfabeto que ele é perfeitamente alfabetizado nas linguagens da vida, do trabalho, do sofrimento, da luta, e só lhe falta aprender a traduzir em traços, no papel, aquilo que já sabe e vive no seu cotidiano. Maiêutico, socrático, Paulo Freire ajuda o cidadão a descobrir, por si, o que traz dentro de si.

E, neste processo, aprendem o professor e o aluno: "A um camponês ensinei como se escreve a palavra arado; e ele me ensinou como usá-lo!" - disse um professor rural. Só é possível ensinar alguma coisa a alguém quando esse alguém, a nós, alguma coisa ensina. O ensino é um processo transitivo - diz o nosso Mestre – é um diálogo, como deveriam ser diálogos todas as relações humanas: homens e mulheres, negros e brancos, classes e classes, países e países. Mas sabemos que esses diálogos - se não forem carinhosamente cuidados ou energicamente exigidos - bem cedo se transformam em monólogos, onde apenas um dos interlocutores tem direito a palavra: um gênero, uma classe, uma raça, um país. Os outros são reduzidos ao silêncio, à obediência: são os Oprimidos. Esse é o conceito Paulo-Freiriano de opressão: o diálogo que se transforma em monólogo.

O Rei Afonso VI da Espanha teria dito certa vez: "Se Deus tivesse pedido a minha opinião antes de criar o mundo, eu teria aconselhado alguma coisa bem mais simples, descomplicada". Paulo Freire, de certa forma, descomplicou o ensino. Embora Deus nada lhe tenha perguntado - isto, é o que consta oficialmente, mas no íntimo estou convencido de que perguntou sim, porque eles conversavam muito! - Paulo criou alguma coisa mais simples, mais humana do que as complicadas formas autoritárias de ensino que obstaculizavam o aprendizado.

Com Paulo Freire aprendemos a aprender.

Com o seu Método, além de se aprender a ler e a escrever, aprende-se mais: aprende-se a conhecer e respeitar a alteridade, o outro, o diferente. Meu semelhante a mim se assemelha, mas não sou eu; a mim se assemelha: com ele me pareço. Dialogando aprendemos, ganhamos os dois, o professor e o aluno, pois que alunos somos todos, e professores também. Existo porque existem. Minha identidade sou eu e são os outros. Para que se escreva em uma página branca é necessário um lápis negro; para que se escreva em um quadro negro é necessário que o giz tenha outra cor. Para que eu seja, é preciso que sejam.

Para que eu exista é preciso que Paulo Freire exista. Esta homenagem nos mostra que, em cada um de nós, um pouco dele existe - existe e cresce.

Onze anos atrás, em Omaha, Nebraska, nos Estados Unidos, lá foi a primeira e única vez em que eu e Paulo Freire nos encontramos lado a lado na mesma mesa, em um grande teatro local, respondendo às mesmas perguntas de mais de mil professores e especialistas que lá estavam participando da Conferência anual que desde 1993 se realiza naquele país: Pedagogia e Teatro do Oprimido. Depois de duas horas de conversa, estava com a palavra Paulo Freire quando a desajeitada coordenadora da mesa anunciou, vacilante e burocrática, que o seu tempo estava esgotado. Paulo respondeu: “O meu tempo pode estar esgotado, mas o meu pensamento não: eu vou continuar”.

Nós, hoje, aqui, presentes nesta homenagem, confirmamos o que disse o Paulo naquela tarde de sol tão frio: o seu tempo pode ter se esgotado, mas o seu pensamento vive.



(04 de agosto/2007)
CooJornal no 540


Augusto Boal é
dramaturgo, ensaísta e escritor
RJ