04/06/2018
Ano 21 - Número 1.079






Müller Barone
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Müller Barone

 

AS PALAVRAS



Vivo me perguntando como foi que consegui fazer amigos. Poucos, é verdade, mas amigos. E uma delas, portanto uma amiga, envia uma mensagem, depois do texto que publiquei. Generosa e cheia de amor, arremata: ‘adoro o que você escreve, o jeito, o som, as cores. Amo você e esse teu dom’. Ela nem percebeu, certamente porque é uma lindona, uma daquelas criaturas que passam pela gente e nos roubam o direto de duvidar da existência de anjos, que a frase curta dela está mais cheia de beleza e conteúdo que todo o meu texto, inclusive porque ela nunca escreve ou fala com as mãos, faz tudo isso com as asas.

Um elogio e, convenhamos, elogios, prêmios, cerveja artesanal e uísque 21 anos é sempre bom ganhar (certo, certo, vinho tinto seco, chileno ou italiano, também).

Na verdade, não tenho o dom coisa nenhuma, sou só o “escrevinhador”, só o instrumento, como se diz em centros espíritas, o cavalo, já que, às vezes, sou meio xucro. E digo como.

Um dia, há muito tempo, eu era criança, voltando da escola, vejo um pedaço de papel pequeno, perto de uma lata de lixo, pra ser bem sincero, ao lado dela. Ele escapou do lixeiro. Sem mais nem menos, abaixei e catei o pedaço de papel abandonado. Ele tinha só uma palavra escrita nele. Mentira, tinha uma letra sobrando no começo, rasgada de outra palavra que se foi, uma palavra inteira, e outra letra que certamente era uma continuação de alguma frase que alguém não gostou e rasgou.

Era uma palavra que eu ainda não conhecia, mas não foi só por isso que eu guardei o papel. Na real, fiquei morrendo de pena daquela palavra desconhecida, porque ela se tornou uma palavra órfã. Foi exatamente isso que senti, que estava diante de uma palavra que perdeu sua família, estava só, perdida, só com o sentido dela mesma, sem texto ou contexto, só um grupinho de letras que significava ela, não uma história.

Como aos nove anos ainda tinha um coração, mantive a palavra comigo, ela e aquelas duas letras, uma em cada ponta do papel. Nem fechei a mão. Segurei entre o polegar e o indicador, bem leve, para que ela se sentisse cuidada, segura, e sentisse aquele ar gostoso de outono que eu já apreciava. Inocente, fui conversando com ela até minha casa.

Não fui até o dicionário. Larguei o jaleco do Leôncio Correa, a mala com cadernos, cartilha e lápis tinto (antes pus a palavra sobre o meu travesseiro), fui almoçar, voltei para o quarto, peguei a palavra e fiquei olhando para ela, tentando adivinhar seu significado. Não consegui. Olhei-a e resolvi criar uma história sobre ela. Enchi de mistério a história (minha noção de mistério, à época, era O Lobisomem, com o Lon Chaney Jr., O Monstro Púrpura do seriado Marte Invade a Terra e a ida de Jambo e Ruivão para Marte com o Professor Gismo).

Não me importava mais seu significado. Significados, afinal, acabam sem significado algum, o que importava era a história daquela palavra.

Fui lá para fora, depois de imaginar tudo, ainda segurando o papel com a palavra entre os dedos. Bateu um vento, o papel se agitou, achei que ela queria escapar de mim. Segurei mais forte, eu começava a amar aquela palavra e não queria que ela fosse embora. Coloquei-a no bolso da minha calça Brim Santista, para que ela continuasse comigo.

À noite, fui levar o programa de rádio para o meu pai, lá na Marumby, no décimo segundo andar do João Alfredo. Pela janela, enquanto esperava o gravador para levar de volta, fiquei contemplando o céu e as estrelas e pensando na minha palavra. Ventava. Peguei o papelzinho com ela e tive a impressão que me disse: ‘Me deixa voar, me solta, quero ir para o céu’.

Mesmo morrendo de tristeza, juro, achei que ela tinha vida por si só e seria pecado se eu a prendesse. Olhei para ela, pus na palma da minha mão, fechei, pus a mão para fora e abri. O vento soprou e ela ganhou o ar, o infinito. Foi direto para cima, acompanhei até onde pude seu voo direto rumo às estrelas. Depois, ela sumiu.

Voltei para casa, fui até o dicionário, descobri o significado e fiquei espantado como a história que inventei tinha tudo a ver com ela. Dormi feliz. Sonhei que minha palavra tinha chegado numa nuvem, encontrado seu contexto, sua família e, por gratidão (nem sabia o que era isso) criou uma nuvem só para mim, para dizer que estava feliz e no céu (como eu era puro) e aquela nuvenzinha que ela formou fez chover sobre mim, durante o sono, uma chuva de palavras que eu nem conseguia identificar.

Então, na verdade, não tenho dom algum, sou só um cara que, um dia, descobriu que as palavras têm vida, cuidei de uma delas e elas acabaram caindo sobre mim como gesto de amor. Portanto, não escrevo, só descrevo o que aquele sonho me trouxe.



Muller Barone é escritor e cineasta.
Curitiba/PR
palanque@palanquemarginal.com.br





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