Müller Barone
PALANQUE SONHADO |
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Porto Alegre, tudo feito, ligo a televisão do hotel. Controle remoto com problemas. Enquanto aguardava outro, por preguiça de levantar e trocar o canal manualmente, assisto a TV Senado. Não se preocupem, às vezes assisto essa, a TV Câmara e aquele canal que dá notícias do STJ e do STF. Também escuto, vez por outra, a Voz do Brasil. É bem interessante, todos deveriam dar uma espiada ou uma escuta, dá para perceber como eles todos, dos Três Poderes, vivem distantes da realidade brasileira. Tirando a elite, o resto desta nação não tem qualquer Poder. Executivo, Legislativo e Judiciário não nos conhecem. Há um lado tragicômico. Vocês precisam ver como os parlamentares deste país são hilários. Os discursos, indignados ou não, a demagogia, o falso nacionalismo deles, as incoerências, enfim, a farsa toda. É triste, mas engraçado porque eles são muito patetas e tentam passar por eruditos. Chamam-se, deputados e senadores, de Vossa Excelência. É ridículo, pois é exatamente Excelência que lhes falta, eles são medíocres. Escutem a Voz do Brasil, uma vez por semana basta. Puxa, me perdi. Vendo a TV Senado, aparece lá um programa (deve ser muito bom gastar o dinheiro público, dá para fazer bobagens mexicanas sem correr riscos de bilheterias fracas) sobre cartas que foram enviadas aos constituintes, antes de 1988. O Congresso, jogando dinheiro fora para fazer firula, enviou cinco milhões de formulários, do Oiapoque ao Chuí, para que as pessoas revelassem como seria o país de seus sonhos. Setenta e oito mil iludidos responderam. Daí, em 2007, por ausência ou censura de pauta, ninguém lembrou de fazer um programa sobre trabalho escravo, trabalho infantil, corrupção, enfim, pegaram algum diretor de televisão que adora o serviço público pela fartura de verbas e fizeram viagens longas e custosas para entrevistar alguns daqueles que responderam as cartas e, claro, nunca foram atendidos. Músicas bacanas, tomadas de paisagens da Amazônia, do sul, do sudeste, como se o Brasil fosse uma "ilha de paz e prosperidade". Medíocres como os parlamentares, que pensam ser eruditos, produtores, diretores e censores usuais nem notaram a ironia no último depoimento. Uma senhora, com ar de sofrida, diz que acreditava em tudo o que escreveu - normal, era seu sonho - e que escreveria tudo de novo, sem mudar uma única vírgula. Então, tirei minha óbvia conclusão: nada mudou e o foi gasta uma grana lascada, no passado, com as cartas e, hoje, com o programa desnecessário. Tudo isso num país que morre de fome, de doenças, analfabeto e por aí vai. Enquanto eles brincam de profissionais de televisão, como seus donos brincam de parlamentares, milhões de brasileiros continuam sonhando com o daqui a pouco, porque nem se atrevem mais a sonhar com o amanhã, talvez preferindo que a morte chegue antes do sol. Taí, nossos representantes, nosso país, mas dos nossos pesadelos. "Seja Herói, Seja Marginal."
(27 de outubro/2007)
CooJornal no 552
Muller Barone é advogado e escritor.
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