17/11/2007
Número - 555


Müller Barone
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Müller Barone




Quem Matou Jean Charles?

  

Se eu fosse escolher uma tiete-mor para chefiar uma torcida organizada minha o nome seria Rosa Pena. Uma cheerleader literária. Pois não é que um belo dia apareço no Rio Total? Obra da Rosa.

Mais tarde, a Irene manda uma mensagem educadíssima agradecendo minha participação e fazendo um convite para participar mais. Quase disse a ela que aquilo foi um mimo da Rosa, que não reconheço nas minhas letras capacidade para estar ao lado de Frei Beto, Affonso Romano, Fátima Michels, Luiz Amorim, Artur da Távola e, claro, da Rosa Pena. O fato de alguns deles escreverem para o Palanque não me endossa em nada.

Portanto, creio que estréio com este texto. Deus tenha piedade de mim e dos leitores. Nervosismo de estreante, não posso decepcionar a Rosa nem a Irene. Então, ataco de ineditismo. Artigo virgem, inédito.

Paro de enrolar e vou ao tema.

Há dois anos daqueles disparos no brasileiro, tudo volta à tona. Reportagem de capa da Carta Capital. Os oficiais ingleses, míopes talvez, atiram primeiro, perguntaram depois, e o morto responde que eles erraram. A polícia inglesa matou Jean Charles, do ponto de vista material e penal a resposta é essa. 22/07/2005.

Longe da lógica penal, se formos honestos, veremos que, quinhentos e cinco anos e três meses, exatamente, após o seu descobrimento, o Brasil matou Jean Charles.

Jean Charles repercutiu muito mais por conta da paranóia terrorista britânica do que por ele em si. Estarei sendo leviano ou não é o único caso de brasileiro morto no exterior? Para ser rápido, tem aquela história da garota do Paraná desaparecida nos EUA, supostamente morta. É capaz de haver uma estatística no Google sobre os óbitos tupiniquins em terras estranhas ao solo da nossa “mãe gentil”.

Politicamente, no caso Jean, como em outros, houve um concurso de agentes. Dos oficiais que dispararam os tiros fatais até o Lula, passando por Ian Blair e todos os governos brasileiros, todos mataram Jean.

Jean era mineiro. Minas Gerais, depois do leite (com soda cáustica ou não) e do queijo, tem como maior produto de exportação imigrantes. Aliás, Minas é prodigiosa em muita coisa. Magalhães Pinto disse, no documentário de Silvio Tendler – Jango, que “o golpe que partiu de Minas foi um golpe democrático”. Minas tem aquela fazenda em Buritis, da família de “THC”, que foi invadida pelo MST, que, se não me engano, foi objeto de uma denúncia na imprensa nacional de crime de sonegação fiscal por parte dos familiares do sociólogo e seus consangüíneos. Minas exportou para o Brasil o Valerioduto, inaugurado pelo Eduardo Azeredo. Em Unaí, por uma negligência imperdoável do PT, do governo de Minas, do Ministério Público do Trabalho, foram fuzilados três fiscais do trabalho e um motorista, que apuravam trabalho escravo naquelas paragens, em 2004. Como se não fosse pública e notória a escravidão por aqui. Era só mandar a PF para realizar o flagrante.

E tem os Jeans que morrem nos morros. Tem os Jeans que passam fome nas capitais e no interior do Brasil. Tem os Jeans que morrem de sede e comendo calango no nordeste, enquanto a grana para açudes irriga as contas correntes dos mesmos. Teve um Jean chamado Chico Mendes, no Acre; uma Jean chamada Dorothy Stang, no Pará. Tem aqueles dezessete Jeans de Eldorado do Carajás, que a polícia do Almir “Blair” Gabriel fuzilou na estrada mesmo. Enfim, tem Jeans no Brasil para dar, vender e exportar.

Quem matou Jean foram aqueles 3,7 bilhões de reais gastos no Pan. Quem matou Jean foi uma arrecadação tributária de mais de um trilhão de reais ao ano que só destina 3% de tudo isso para questões sociais. Quem comprou a passagem de Jean no metrô, naquele 22/07/2005, foram os mais de 50 bilhões de reais que somem no Brasil sob a rubrica “corrupção”, como noticiou um jornal espanhol, claro, porque os daqui jamais dariam semelhante manchete. Quem migrou Jean para a morte foi nosso sexto lugar entre os países com maior índice de pobreza.

Agora vem o relatório da IPCC e, puxa vida, afirma que a polícia inglesa errou.

Ian Blair e os policiais que apertaram o gatilho são os alvos fáceis. Até eu, que mal sei usar espingarda de pressão, acerto eles. São também bodes expiatórios perfeitos à indiferença dos governantes brasileiros com seus governados e à inércia na criação de mecanismos contra a miséria tipo reformas agrária, fiscal, previdenciária, enfim, aquilo tudo que todos sabem, mas volta sempre para o cesto de lixo, depois do discurso em algum coreto eleitoral.

O pior, na história toda, é que se o Jean tivesse sido baleado aqui, pela polícia do Serra, do Aécio ou do Sérgio Cabral, ninguém saberia, nem lembraria, seria só mais um dígito nas estatísticas do IBGE, num pau brabo uma manchete sensacionalista de um tablóide de Minas, Paraná, Bahia...

De Gonzaga para Londres. Digitem no Google “brasileiros mortos no exterior”. Quem se assustar é mulher do padre, porque mais uma vez escrevi sobre o óbvio. Desculpem-me Rosa, Irene e demais articulistas e leitores, não consegui marcar minha estréia com originalidade.



(17 de novembro/2007)
CooJornal no 555


Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
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