24/11/2007
Número - 556


Müller Barone
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Müller Barone




Treze

  

Conversando com um estudioso da Cabala, falávamos, em razão do problema analisado, sobre os números 11, 4 e 16. Contas para lá e para cá, outros foram surgindo em seqüência, precisamente o 10 e o 12. De repente, a coisa pula para o 14, ou seja, passa batida pelo 13. Acabei ouvindo o seguinte: “O 13 é um número difícil de lidar. Até onde sei, só Jesus soube usá-lo.”

Treze é o número da transformação. No tarô ele é vinculado ao Arcano da Morte juntamente com o signo de Escorpião, que significam transformação, e à letra Nun, do alfabeto hebraico, que, aplicada no sentido iluminado, remete à derrubada das barreiras da separação, da ignorância, do medo, do ódio; na sombra, ela é frieza e indiferença.

Em 2002, milhões de pessoas, pensando na mudança, na transformação do país, digitaram o número treze na urna eletrônica. Quatro anos depois (4 é uma decomposição do 13 – 1+3=4), repetiram o gesto, o número e o sentimento de esperança.

Lula é escorpião. Lula é o metalúrgico que se transformou em presidente. Lula é o retirante que deu certo, o homem que veio do nada para o tudo. Lula é o símbolo do PT e o PT é 13.

Naqueles distantes dias de 2002 e 2006, dias de outubro, dias de escorpião, milhões de dedos digitaram o número da transformação, o 13, e esperavam que transformação viesse.

Hoje, percebe-se, mais uma vez, que o uso correto do número ainda permanece como uma habilidade exclusiva do Filho de Deus. Lula se transformou mais uma vez, e o PT com ele. Envolto na sombra, deixou de ser o cara que pensava naqueles em que Cristo também pensou e passou a ser um 9 (45 – 4+5=9), um PSDB mais à esquerda. A sombra do Nun, frieza e indiferença. A transformação do escorpião longe da luz. O 13 do medo, da indiferença, da superstição. O 13 ao estilo norte-americano, cujos prédios não têm um décimo terceiro andar, não numerado, pelo menos. O 13 neo-liberal, mas não libertador.

Lula deu marretadas nos muros da ignorância, da pobreza, do ódio, da discriminação financeira e social do país, mas não os derrubou. Sem habilidade para domar o 13, perdeu-se na transformação e tratou de usá-la a favor de todos aqueles que, até hoje, transformam todo e qualquer número em situações que lhes são favoráveis, ou seja, os integrantes da elite brasileira. Passou de metalúrgico a presidente, mas passou de presidente que queríamos a presidente igual aqueles que não queríamos mais.

É duro confessar esta desilusão, afinal, fiz campanha, acreditei e votei. Mesmo tendo anulado meu voto em 2006, sinto uma dor muito grande quando vejo o que poderia ser e o que está sendo. Sinto-me traído, como outros milhões que esperavam o mesmo mínimo que eu. Lembro da Paula, em 2002, saindo do local de votação, vindo em minha direção, camiseta do Lula e lenço do PT amarrado à cabeça. Duas bandeiras do PT no carro, uma menor no encosto do banco traseiro da moto. Depois...mensalão, política econômica equivocada, distância das promessas de campanha, CPMF que e o PT tanto criticou, milhões ainda com fome, nada de reformas essenciais, trabalhadores ainda são pungados com a retenção do IR na fonte, ato que, antes, era tido como heresia e injustiça pelo escorpião transformado.

Aí penso naqueles milhões que vivem abaixo da linha da miséria, naqueles outros milhões que se equilibram sobre ela, naqueles milhões que escapam dela, mas estão sempre obrigados a uma rotina triste de sobrevivência que lhes tira a vontade de viver, que torna seus corações e mentes tão nebulosos como a Casa 8 (casa de escorpião). E penso se eles estão decepcionados como eu. Daí me ocorre que não, que estão tão acostumados a verem todos seus sonhos e esperanças transformadas em pó que nem dão bola, só aguardam o momento em que tudo para eles virará literalmente pó, a última fase, a transformação final, a passagem integral pelo Arcano XIII, A Morte.

“Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós.”



(24 de novembro/2007)
CooJornal no 556


Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
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