Müller Barone
Treze |
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Conversando com um estudioso da Cabala, falávamos, em razão do
problema analisado, sobre os números 11, 4 e 16. Contas para lá e para
cá, outros foram surgindo em seqüência, precisamente o 10 e o 12. De
repente, a coisa pula para o 14, ou seja, passa batida pelo 13. Acabei
ouvindo o seguinte: “O 13 é um número difícil de lidar. Até onde sei,
só Jesus soube usá-lo.”
Treze é o número da transformação. No tarô ele é vinculado ao Arcano
da Morte juntamente com o signo de Escorpião, que significam
transformação, e à letra Nun, do alfabeto hebraico, que, aplicada no
sentido iluminado, remete à derrubada das barreiras da separação, da
ignorância, do medo, do ódio; na sombra, ela é frieza e indiferença.
Em 2002, milhões de pessoas, pensando na mudança, na transformação do
país, digitaram o número treze na urna eletrônica. Quatro anos depois
(4 é uma decomposição do 13 – 1+3=4), repetiram o gesto, o número e o
sentimento de esperança.
Lula é escorpião. Lula é o metalúrgico que se transformou em
presidente. Lula é o retirante que deu certo, o homem que veio do nada
para o tudo. Lula é o símbolo do PT e o PT é 13.
Naqueles distantes dias de 2002 e 2006, dias de outubro, dias de
escorpião, milhões de dedos digitaram o número da transformação, o 13,
e esperavam que transformação viesse.
Hoje, percebe-se, mais uma vez, que o uso correto do número ainda
permanece como uma habilidade exclusiva do Filho de Deus. Lula se
transformou mais uma vez, e o PT com ele. Envolto na sombra, deixou de
ser o cara que pensava naqueles em que Cristo também pensou e passou a
ser um 9 (45 – 4+5=9), um PSDB mais à esquerda. A sombra do Nun,
frieza e indiferença. A transformação do escorpião longe da luz. O 13
do medo, da indiferença, da superstição. O 13 ao estilo
norte-americano, cujos prédios não têm um décimo terceiro andar, não
numerado, pelo menos. O 13 neo-liberal, mas não libertador.
Lula deu marretadas nos muros da ignorância, da pobreza, do ódio, da
discriminação financeira e social do país, mas não os derrubou. Sem
habilidade para domar o 13, perdeu-se na transformação e tratou de
usá-la a favor de todos aqueles que, até hoje, transformam todo e
qualquer número em situações que lhes são favoráveis, ou seja, os
integrantes da elite brasileira. Passou de metalúrgico a presidente,
mas passou de presidente que queríamos a presidente igual aqueles que
não queríamos mais.
É duro confessar esta desilusão, afinal, fiz campanha, acreditei e
votei. Mesmo tendo anulado meu voto em 2006, sinto uma dor muito
grande quando vejo o que poderia ser e o que está sendo. Sinto-me
traído, como outros milhões que esperavam o mesmo mínimo que eu.
Lembro da Paula, em 2002, saindo do local de votação, vindo em minha
direção, camiseta do Lula e lenço do PT amarrado à cabeça. Duas
bandeiras do PT no carro, uma menor no encosto do banco traseiro da
moto. Depois...mensalão, política econômica equivocada, distância das
promessas de campanha, CPMF que e o PT tanto criticou, milhões ainda
com fome, nada de reformas essenciais, trabalhadores ainda são
pungados com a retenção do IR na fonte, ato que, antes, era tido como
heresia e injustiça pelo escorpião transformado.
Aí penso naqueles milhões que vivem abaixo da linha da miséria,
naqueles outros milhões que se equilibram sobre ela, naqueles milhões
que escapam dela, mas estão sempre obrigados a uma rotina triste de
sobrevivência que lhes tira a vontade de viver, que torna seus
corações e mentes tão nebulosos como a Casa 8 (casa de escorpião). E
penso se eles estão decepcionados como eu. Daí me ocorre que não, que
estão tão acostumados a verem todos seus sonhos e esperanças
transformadas em pó que nem dão bola, só aguardam o momento em que
tudo para eles virará literalmente pó, a última fase, a transformação
final, a passagem integral pelo Arcano XIII, A Morte.
“Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo, tende piedade de
nós.”
(24 de novembro/2007)
CooJornal no 556
Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
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