01/12/2007
Número - 557


Müller Barone
Arquivo

 

   

Müller Barone



Palanque Igualitário

  

De Cabral até hoje, os governos brasileiros têm sido prodigiosos em invencionismos e demagogia. Claro que seriam necessários uns duzentos editoriais para relacionar tudo, portanto, fiquemos com os mais recentes. Vamos começar com o Collor: Estatuto da Criança e do Adolescente, a sigla, por si só, já diz tudo “ECA”. Não é uma “eca” por ser ruim, mas por ser totalmente incompatível com a realidade brasileira. FHC: este deve ser analisado no global, ou seja, veio com aquele discurso de modernidade e afundou o país. O Lula, além dos dois “Ls” no nome, guarda semelhança com o Collor pelo discurso populista barato e, para não perder a linha, o invencionismo demagógico legislativo, veja-se o Estatuto do Idoso e o mais recente Estatuto da Igualdade Racial, sem esquecer aquela cartilha idiota do “politicamente correto” que muda até expressões idiomáticas. É proibido falar “a coisa ta preta.”, porque ofenderia os afro-descendentes, o que é contraditório, porque “preto” é uma qualificação que, segundo as normas, não se aplica aos descendentes da raça negra. Então, a proibição sugere o preconceito. Saci vira “afro-descendente portador de necessidades especiais.” Isso foi o que restou de esquerda ao PT, ou seja, a demagogia de passeatas, típica da esquerda alegre que se acha progressista, para nosso azar, que esperávamos um ação mais à esquerda no campo do social, da produção, da educação. Dêem uma lida no Estatuto da Igualdade Racial (não esqueçam de tomar Engov e de chamarem o Gastão, o Vomitador), obra da eterna pirotecnia oportunista de Paulo Paim. São 67 artigos primorosamente inconstitucionais, um tratado em prol da discriminação, um manifesto a favor do ódio racial, um cuidadoso manual de criação de gueto. Prestem atenção só em três artigos, já do começo, e vejam o que faz a falta de bom-senso e a que ponto chegou a desfaçatez dos nossos políticos: “Art. 4o A participação dos afro-brasileiros, em condições de igualdade de oportunidades, na vida econômica, social, política e cultural do País será promovida, prioritariamente, por meio de:”. Algo que a constituição já assegura, mas a todos, não só aos afro-brasileiros. Individualizar fere a Constituição, privilegia um grupo e discrimina os demais. Art. 10. O direito à saúde dos afro-brasileiros será garantido pelo Estado mediante políticas sociais e econômicas destinadas à redução do risco de doenças e outros agravos.” Idem, além da pergunta: Quantos brasileiros de outras raças morrem em filas de hospitais, em casa ou nas lavouras? O mosquito da dengue, porventura, faz alguma distinção entre negros, brancos, amarelos ou vermelhos no momento da picada? Agora, um primor de inconstitucionalidade, que lembra muito a política anti-judeus de Adolf Hitler: “Art. 11. O quesito raça/cor será obrigatoriamente introduzido e coletado, de acordo com a autoclassificação, em todos os documentos em uso no Sistema Único de Saúde, tais como:” Precisa alguma explicação? Lembrei daquela estrela amarela que os judeus foram obrigados a usar, após a ascensão do nazismo. Igualdade racial, Senador Paulo Paim, haverá de existir neste país no dia em que os políticos lembrarem que “Todos são iguais perante a lei.”, que um dos fundamentos da nossa República é a dignidade da pessoa humana, sendo um dos seus objetivos  “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.” (Art. 2º, Inc. IV – CF). Todos os brasileiros querem aquilo que o irresponsável senador está garantindo apenas para uma classe deles. Atenção que está para sair um Estatuto dos Gays, Lésbicas e Simpatizantes. Fiquem atentos, brancos, amarelos, negros, gays, lésbicas, homens, mulheres, a secessão está em andamento, pequenas repúblicas intolerantes podem brotar daí. É um perigo o que está sendo levado a cabo por legisladores irresponsáveis como o Senador gaúcho. Em vez de unir eles estão separando, criando a segregação legal. Gostaria de sugerir o seguinte, já que a intenção é acabar com a desigualdade: fim do foro privilegiado para políticos (isso é discriminação e gera impunidade, como todos sabem); fim das votações sigilosas no Congresso; fim dos salários absurdos e vantagens dos políticos ou um salário mínimo decente, que equipare trabalhadores e senadores, ainda que proporcionalmente e por aí vai. Tudo isso é demagogia, é um engodo para desviar a atenção da falta de políticas sociais adequadas que dispensariam estatutos assim. Eu ficaria puto com isso se fosse negro, idoso, judeu, gay, chinês, polonês, nordestino, enfim. O povo brasileiro quer respeito no sentido amplo da expressão. Não queremos esmolas e muito menos piedade ou, ainda, que explorem, só visando dividendos políticos, nossas necessidades, nossa desesperança, nossa agonia de viver num país maravilhoso e promissor, mas roubado até em sua dignidade por quem nos governa desde o descobrimento. Brasileiros de todas as raças, “uni-vos, nada tendes a perder, a não ser vossos grilhões.” “Seja Herói, Seja Marginal.”




(01 de dezembro/2007)
CooJornal no 557


Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
http://www.palanquemarginal.com.br/ 
palanque@palanquemarginal.com.br