15/12/2007
Número - 559


Müller Barone
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Müller Barone



Chato

  

Foi o adjetivo usado contra mim por um amigo: “Cara, você anda um chato e repetitivo!!!”. Manjem a convicção, a vontade que ele teve de falar. Três pontos de exclamação, ou seja, chato pra cacete. Gostei do verbo no presente (anda), sinal que tem gente que acredita que, antes, eu não era.

De alguma forma, ele tem razão. Ando meio repetitivo mesmo. Dei uma passada de olhos no que tenho escrito e constatei que, de um jeito ou de outro, tenho andado em círculos. Tudo é Brasil, Lula, FHC, Renan, CPMF, putzgrila, que pentelhação. Serei eu um brasileiro preocupado e atento com os destinos da pátria ou simplesmente um dublê de escritor, sem criatividade?

Quase dei uma de bobo e, como quem não quer nada, a não ser uma saída a Leão da Montanha, ponho a culpa na minha rotação solar, naquele Mercúrio em Câncer que, junto com o Sol (que sempre permanece em Gêmeos), se instalou na Casa XII e me deixou aéreo, bem mais aéreo que o normal, e alhures, quase boladão, algo como um chapado existencial. Mas não fiz, porque é chatice mesmo.

Rabugento sei que sou há muito tempo, mas a coisa se agravou de uns tempos para cá, até o tesão está meio em baixa. Nem minha ex-terapeuta se arrisca, não quer saber de me atender, nem responde os recados que deixo para ela.

Sinceramente eu já andava procurando os motivos de tanta chatice, depois da mensagem e da olhada que dei nos meus últimos escritos, intensifiquei mais a coisa, mas ainda nada vi que me ajudasse a sair desta. Aliás, foi pior. Li umas reportagens em revistas e jornais. Os caras andam tão repetitivos, se não mais, quanto eu. É CPMF para tudo quanto é lado, apesar do terremoto em Minas. Por falar nisso, viram as casas que ruíram naqueles quinze segundos? Uma menina morreu porque a parede do quarto caiu sobre ela, mas as paredes daquela casa não resistiriam a um suspiro de tristeza do lobo mau, imaginem a um tremor de 4,9 graus.

Chato mesmo. Inventa alguma coisa aí, Barone. O problema é que o Brasil é repetitivo, nossos problemas são crônicos, independentemente da alternância de poder por um ou dez mandatos. Falando sério: que diferença faz Lula por três mandatos ou Serra por quatro (ou de quatro, como sugerem alguns)? Faz bem para a democracia. Boa, cara pálida, mas, então, acho que deveríamos saber qual é, afinal, o sinônimo de democracia, a real definição e sua efetiva aplicação.

Nossa, que texto mais chato. Do povo, pelo povo, para o povo. Daí aparecem nos noticiários e jornais da democracia brasileira matérias sobre trabalho escravo, sobre o abismo entre os mais pobres e os mais ricos. Fome no campo soa para mim como aquele sofrimento imposto a Tântalo: amarrado a uma árvore, com sede e com fome, cada vez que aproximava a boca da água que jorrava perto ou de um fruto que pendia de um galho, ambos se afastavam. Passar fome, num país em que tudo dá, em qualquer lugar, é um absurdo, mas no campo o absurdo é maior, principalmente quando sabemos que a maior parte dos 14 milhões de famélicos rurais trabalham em lavouras. É o sofrimento tantálico, mas eles não são titãs, são esquálidos. E não são os deuses que os castigam, mas homens que os escravizam.

Chato, meu Deus (que não é o do Ratzinger, nem o do Edir Macedo), como estou chato e repetitivo. Notaram que até a estrutura dos textos tem sido a mesma? Alguém, por gentileza ou piedade, poderia sugerir um tema?

Aí leio o texto da Lílian no Rio Total, levianamente acho que fui sua fonte inspiradora, porque o meu anterior abordava um tema semelhante. Espanto-me ao final, eu fui o inspirado, não o inspirador, ou ela é chata e repetitiva como eu, o artigo era do início de 2003. Brasil repetitivo. Leio a Rosa Pena, que tem aquele libriano dom de enfeitar mendigo com uma simples virada de colarinho ou puxada na manga da camiseta rota. Mas ela repassa os mesmos temas, ou seja, este Brasil (típico ou atípico?) com suas mazelas. E ainda, irônica, brinca com a palavra “sadia”, grafando-a com s maiúsculo, caricaturando de forma para lá de contundente a fome endêmica desta terra, que o “pão e circo” anotado pela Lílian não está resolvendo.

Diante de tanta coisa errada, vista e revista, dita e redita, passada e repassada tudo pode virar eternamente chato e repetitivo, inclusive porque tenho aquela estranha sensação de que quase sou um repórter da Globo, isto é, escrevo sobre tudo o que já foi dito, publico e fim, não faço mais nada. Voto nulo, aponto o erro, tento fazer melhor a vida de algumas pessoas, mas, além disso, só apóio o rosto na palma da mão, bocejo diante do tédio do macabro lugar comum e concordo com meu amigo: “Estou chato e repetitivo”, sou a cara do Brasil, da nossa fome, dos nossos políticos. Nossa miséria, porque já nos conformamos com ela, é simplesmente tédio, bocejos, chatice e repetição, é normal, é o dia-a-dia, ao que parece, imutável.


(15 de dezembro/2007)
CooJornal no 559


Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
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