29/12/2007
Número - 561


Müller Barone
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Müller Barone



Palanque de Natal

  

Quem é leitor assíduo do Palanque sabe que o hábito, aqui, na época de natal, não é fazer comparações entre ricos e pobres, louvando-se da data que permite isso, não só aos que durante o ano todo o fazem com sinceridade de propósitos, mas também aos críticos meramente pontuais e, por conseguinte, oportunistas. Gosto de mostrar o lado bom das coisas, já que tudo é luz e sombra, algo que sempre repito. Mas, nem sempre a luz é alegria ou a sombra tristeza. A sombra também é reveladora, notadamente quando a luz, por seu brilho, ofusca a verdade. Aqui vai, então, um presente que alguns podem entender como uma falácia daquelas típicas da esquerda que critica a data, porque muito diferente daquela do editorial do natal passado. Deu até na Globo, que, às vezes, tenta dar uma de boazinha, como se ela própria não tivesse sido uma das maiores fomentadoras de tanta barbaridade: um estudo da Transparência Brasil, uma organização sem qualquer vinculação partidária (acessem http://www.transparencia.org.br/index.html), que se esforça para denunciar a corrupção no Brasil, assim como a pouca vergonha política, mostra que a nossa Pátria Amada tem o Poder Legislativo (em todos os níveis) mais caro do mundo. Não é o mais caro da América do Sul ou das Américas, é o mais caro do Planeta Terra. Já quase me atrevo a achar que, nesse quesito, somos os mais caros do Sistema Solar. Isoladamente, o Senado é a casa parlamentar mais cara da Terra, com um orçamento anual de (morram de ódio no natal) R$ 2.680.468.223,00 - ou sete milhões e cinqüenta e quatro mil salários mínimos. Cada senador custa para nós, anualmente, R$ 33.092.200,28 – mais de oitenta e sete mil salários mínimos. Não se preocupem que os números da Câmara dos Deputados não ficam para trás: orçamento anual de R$ 3.387.603.958,00 – quase nove milhões de salários mínimos. Como na Câmara o Ali Babá tem mais, digamos, parceiros, o custo, devidamente rateado por cada membro do bando, fica menor que o da quadrilha do Senado: cada deputado federal custa, anualmente, R$ 6.603.516,49 – mais de dezessete mil salários mínimos. É impressão minha ou estamos diante de um absurdo num país onde existem mais 30 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria? Pensem nestes números e somem a eles os números dos Poderes Legislativos Estaduais (R$ 4.897.904.436,00) e Municipais (R$ 1.465.003.593,00), vomitem o peru e o chester e engulam o sapo. Melhor não espiarem os números dos outros dois poderes, é quase certo que isto trará muita dor aos parentes e amigos com suicídios por enforcamento nas árvores de natal. É o presente do Palanque, guardem com muito amor, pois, como todos vocês notaram, é um presente caro. Levem-no com vocês para as urnas nas próximas eleições (se resolverem votar), levem como se fosse um santinho com o número do candidato (neste caso 99). Mas, por favor, dêem um presente ao Palanque: se forem votar, principalmente nos mesmos, esqueçam este editorial, mas não esqueçam que os dados aqui lançados não contemplam os valores relativos a “mensalões” e outras rubricas da corrupção, cafezinho, água, luz, telefone, nem aquele mais de um milhão de reais gastos para comprar notebooks (ultrapassados) para os deputados federais. Não esqueçam que é do nosso bolso que a grana sai. Esta edição ficará no ar até o dia 11 de janeiro de 2008, porque vou tirar umas férias, é tempo bastante para todos lerem, relerem e pensarem, principalmente porque 2008 será mais caro, não só pelo aumento natural de tudo, como também por ser ano bissexto, ou seja, um dia a mais, um dia que valerá, se os custos, por hipótese utópica, forem os mesmos, R$ 16.692.000,00 (custo diário só do Congresso Nacional, num ano de 365 dias). O vídeo também é um presente, foi enviado pelo Luiz Celso de Matos, que recebeu de alguém. No Especial tem uma síntese tirada do site da Transparência Brasil, com endereços para o estudo completo. “Feliz” Natal e “Próspero” Ano Novo, entre aspas para nós, porque os políticos certamente terão ambos, salvo se formos menos indignos a partir de hoje. Prezado Papai Noel, segue abaixo uma foto do que eu quero de presente de Natal. “Seja Herói, Seja Marginal.”



(29 de dezembro/2007)
CooJornal no 561


Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
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