|
Müller Barone
Abrindo A
Gaveta |
|
Escritores verdadeiros
(como é o caso da Rosa Pena, da Lílian Maial, da Vera Saber, do
Leonardo Boff ou da Urda Klueger) ou pretensos – mais para
pretensiosos – como é o meu caso, têm vícios que os mais generosos
chamam de estilo. Generalizemos para isto não ficar comprido (“não
passe de uma página de word”, aconselhou-me a Rosa Pena) e
adotemos o nome de “estilo”.
Se o título aí posto
viesse acompanhado do nome da Rosa (literário, hein?),
induziria o leitor a pensar numa crônica sobre mulheres frenéticas,
jazz, sonhos e delírios entre o sensual e o prosaico; com uma
assinatura de Lílian Maial – com direito até ao sinal de marca
registrada – levaria o leitor a pensar em algo mais meigo, quase
choroso, combinando com o olhar
“menina-que-cresceu-e-ainda-sonha-com-o-príncipe-encantado” típico da
médica que gosta mais de escrever; Vera Saber rasgaria um conto no
estilo paulicéia, e as gavetas seriam os milhares de andares daqueles
espigões sufocantes de São Paulo; Leonardo Boff induziria de cara a
uma gaveta totalmente metafórica, lotada daquelas questões que nos
oprimem; Urda Klueger abriria um encanto ou desencanto social muito
certo e aparente naqueles “sertões” catarinenses repletos de
coronelismo germânico no melhor jeitão Triumph des
Willens.
Vai passar de uma
página, Rosa. Se o título vem com o meu nome, todo mundo já espera
algo meio desequilibrado, tipo arrancar do fundo do baú, não da
gaveta, dores e lembranças de uma visão desiludida e quase
esquizofrênica da vida. Mas desta vez é só realidade e a pura
impressão, nua e crua, de uma situação incômoda, para dizer pouco.
Meu dia começou
atípico, acordei, sem mais nem menos, às sete e quinze. Venho travando
uma guerra contra o cigarro (de quarenta por dia passei para cinco),
meu vício de mais de trinta anos. Andando na rua, senti tonturas,
taquicardia e quase achei que não chegaria em casa sem a
constrangedora ajuda de desconhecidos ou de uma ambulância. Descobri
que era efeito do remédio, além da crise de abstinência, que tomara à
noite, antes de dormir. Parei com ele.
A manhã se arrastou e
a tarde começava a me devolver ao prumo quando toca o telefone:
- Cara, acabei de
receber um telefonema dizendo que o “fulano já era”.
O fulano é um
dependente de crack que tem dívidas com traficantes.
Tentei acalmar o
sujeito do outro lado, dizendo que traficantes não avisam quando
apagam alguém; largam o corpo em qualquer valeta da região
metropolitana, até que os urubus apontem o local para curiosos ou para
a polícia e, aí, o IML talvez identifique e avise ou, conforme o tempo
de ausência, alguém resolva procurar no Instituto de Criminalística.
Mas ficou a dúvida,
porque todos acham que é questão de tempo para isso acontecer. Liguei
para um amigo da polícia e pedi ajuda. Dez minutos depois, vem a
ligação:
- Tem três corpos não
identificados no IML. Dois homens de, mais ou menos, quarenta e oito
anos e um de, aparentemente, quarenta e um.
Era o de quarenta e um
que me interessava, inclusive pelas características físicas.
Minha cabeça estava
zonza, confusa. Sintomas da abstinência ficaram mais fortes. Eu não
queria ir até lá. Estava cansado e, reconheço, com medo. Imaginava o
necrotério e o cara do IML abrindo a gaveta, tirando um lençol de cima
do corpo e eu olhando para alguém que amo e fazendo o reconhecimento
positivo. Nem sei se era a morte que me impressionava ou as vidas que
ficariam aqui para chorá-la, ou, ainda, toda a morbidez de uma
situação pesada como deve ser esta.
Tentei outras maneiras
de me certificar. Todas falharam.
Chovia. Chovia não,
garoava. Não me senti apto a dirigir por tudo o que sentia fisicamente
e também pelo impacto que teria um eventual reconhecimento positivo
sobre minha cabeça. A Cris me levou e, percebendo minha agonia,
prontificou-se a entrar e conferir os corpos. Claro que não deixei.
Dezoito horas. Pista
molhada, motoristas nervosos com a chuva, trânsito caótico. Menos de
cinco quilômetros entre minha casa e o IML tomaram mais de meia hora.
No caminho, já conformado para qualquer resultado, minha mente tentava
articular todas as hipóteses, inclusive a burocracia toda. E tudo era
só uma tentativa de evitar o que poderia ser inevitável.
Chegamos. Não deixei a
Cris entrar, ela ficou esperando no estacionamento. Era minha a
obrigação de conferir, por isso me ligaram.
É mentira que o tempo
não pára! Nessas horas ele pára, se não pára, se arrasta. Entre o
“boa-noite” no balcão da recepção e o “pois não” do funcionário com ar
de tédio ou de cansaço, corre uma eternidade. Garanto que mundos e
mais mundos se criam ou somem do universo naqueles aparentemente
exíguos segundos.
- Me informaram que há
três corpos de homens não identificados, mortos por questões
envolvendo drogas. Tô procurando um de quarenta anos, mais ou menos.
Não sei quanto tempo
levei para elaborar aquele período de poucas palavras. Antes me
preocupei em demonstrar frieza e segurança, embora me faltassem as
duas coisas. Mais dois infinitos minutos. Um funcionário pega uma luva
de necropsia e me faz sinal para entrar dizendo “por aqui.” Não tinha
mais volta, eu estava prestes a me defrontar com o pavor do choque de,
talvez, ver deitado e morto, numa câmara fria, sem qualquer
identificação, alguém que conheço e amo.
No CSI é diferente; em
filmes é diferente. Além da distância de espectador, há um certo
glamour do enredo, funesto é verdade, mas há. A vida não tem glamour e
o IML de Curitiba (como qualquer IML destes tristes trópicos) não tem
nada de primeiro mundo ou de cinematográfico, só as tampas das gavetas
são iguais.
E entrei naquela
galeria repleta de gavetões, o cheiro de carne podre tomava conta do
lugar. Nem me deram uma máscara pós-transplante de medula óssea, tive
que afundar meu nariz na camiseta, que não adiantou nada. O cheiro da
morte penetra pelos fios e fica cravado nas narinas. Ela se impõe além
da sua definitividade, tira todos os sentidos do morto, claro, mas se
apossa petulante dos seus em vida: o frio, no tato; o silêncio ou o
ranger da gaveta, na audição; o fedor, no olfato; o gosto amargo, no
paladar; e o pavor de corpos amarelados, na visão.
No meio daquela tumba
enorme, um corpo jazia sobre uma maca, coberto de papel. Pelo tamanho
do braço, já sabia que não era quem eu temia identificar. Quase fiquei
aliviado, mas o funcionário, com as luvas calçadas, olhou para mim e
preparou-se para abrir uma gaveta:
- Só este ainda não
foi identificado, os outros dois já.
Abriu. A primeira
coisa que vi foi uma cabeça enfaixada por uma espécie de gaze de
segunda. Tive o impulso de fechar os olhos, mas aí tudo seria em vão.
Aos centímetros o resto do corpo foi-se revelando. Uma barba mais ou
menos comprida me tranqüilizou e tive, enfim, coragem de olhar de
verdade. Um peito afundado e esquálido, morto, portanto não arfava. Um
estranho. Disse que não era quem eu procurava e recebi um consolo
burocrático mas sincero: “Menos mal, né?” O cara ainda me
perguntou se eu não queria ver um corpo feminino que estava lá, sem
identificação. Quase perguntei o motivo, mas só fiz uma piada mórbida:
“Não, obrigado, as viciadas que conheço, que eu saiba, estão em
casa.”
Saí e avisei quem eu
deveria avisar. Alguém do outro lado da linha respirou em paz.
No caminho de volta
para casa, pensei em todas aquelas gavetas, em cada um dos corpos que
poderiam estar lá, em cada crônica que cada uma daquelas vidas já
esgotadas teria para contar. E me impressionou o corpo que me foi
apresentado. Um homem que eu nunca em vida, entrava para a minha
história com sua morte e eu nem soube seu nome, óbvio. E passei o
resto da noite sentindo que havia invadido a “vida” daquele estranho
em seu ato final, um intruso após seu último suspiro.
Porque a vida
continua, jantei com a Cris e fumei meu quinto cigarro. Depois de toda
aquela morte, de todo aquele dia cheio de tensão, quase agradeci a
satisfação daquele momento de vício que pretendo matar, porque naquela
hora ele não era um traficante que pretende me pegar, mas um amigo que
está indo embora depois de trinta anos, findando, morrendo como aquele
corpo anônimo de cabeça enfaixada morreu ou como aquele de quarenta e
um que fui procurar.
Depois eu soube que
quem eu procurava voltou para casa inteiro. Fechei a gaveta daquele
dia quase dando um adeus sincero e sentido ao morto que conheci, como
um consolo ao seu frio anonimato, como um carinho a vida dele que se
foi sem ao menos o número do RG que o identificou a vida toda.
No outro dia, sem
tonturas, fui com a Cris andar no parque, num lugar com pouca gente e
muita natureza. Eu precisava inalar ar puro e tirar dos sentidos toda
aquela morte.
Vida comprida, hein
Rosa?
(05 de abril/2007)
CooJornal no 575
Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
http://www.palanquemarginal.com.br/
palanque@palanquemarginal.com.br