05/04/2008
Número - 575


Müller Barone
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Müller Barone



Abrindo A Gaveta

  

Escritores verdadeiros (como é o caso da Rosa Pena, da Lílian Maial, da Vera Saber, do Leonardo Boff ou da Urda Klueger) ou pretensos – mais para pretensiosos – como é o meu caso, têm vícios que os mais generosos chamam de estilo. Generalizemos para isto não ficar comprido (“não passe de uma página de word”, aconselhou-me a Rosa Pena) e adotemos o nome de “estilo”.

Se o título aí posto viesse acompanhado do nome da Rosa (literário, hein?), induziria o leitor a pensar numa crônica sobre mulheres frenéticas, jazz, sonhos e delírios entre o sensual e o prosaico; com uma assinatura de Lílian Maial – com direito até ao sinal de marca registrada – levaria o leitor a pensar em algo mais meigo, quase choroso, combinando com o olhar “menina-que-cresceu-e-ainda-sonha-com-o-príncipe-encantado” típico da médica que gosta mais de escrever; Vera Saber rasgaria um conto no estilo paulicéia, e as gavetas seriam os milhares de andares daqueles espigões sufocantes de São Paulo; Leonardo Boff induziria de cara a uma gaveta totalmente metafórica, lotada daquelas questões que nos oprimem; Urda Klueger abriria um encanto ou desencanto social muito certo e aparente naqueles “sertões” catarinenses repletos de coronelismo germânico no melhor jeitão Triumph des Willens.

Vai passar de uma página, Rosa. Se o título vem com o meu nome, todo mundo já espera algo meio desequilibrado, tipo arrancar do fundo do baú, não da gaveta, dores e lembranças de uma visão desiludida e quase esquizofrênica da vida. Mas desta vez é só realidade e a pura impressão, nua e crua, de uma situação incômoda, para dizer pouco.

Meu dia começou atípico, acordei, sem mais nem menos, às sete e quinze. Venho travando uma guerra contra o cigarro (de quarenta por dia passei para cinco), meu vício de mais de trinta anos. Andando na rua, senti tonturas, taquicardia e quase achei que não chegaria em casa sem a constrangedora ajuda de desconhecidos ou de uma ambulância. Descobri que era efeito do remédio, além da crise de abstinência, que tomara à noite, antes de dormir. Parei com ele.

A manhã se arrastou e a tarde começava a me devolver ao prumo quando toca o telefone:

- Cara, acabei de receber um telefonema dizendo que o “fulano já era”.

O fulano é um dependente de crack que tem dívidas com traficantes.

Tentei acalmar o sujeito do outro lado, dizendo que traficantes não avisam quando apagam alguém; largam o corpo em qualquer valeta da região metropolitana, até que os urubus apontem o local para curiosos ou para a polícia e, aí, o IML talvez identifique e avise ou, conforme o tempo de ausência, alguém resolva procurar no Instituto de Criminalística.

Mas ficou a dúvida, porque todos acham que é questão de tempo para isso acontecer. Liguei para um amigo da polícia e pedi ajuda. Dez minutos depois, vem a ligação:

- Tem três corpos não identificados no IML. Dois homens de, mais ou menos, quarenta e oito anos e um de, aparentemente, quarenta e um.

Era o de quarenta e um que me interessava, inclusive pelas características físicas.

Minha cabeça estava zonza, confusa. Sintomas da abstinência ficaram mais fortes. Eu não queria ir até lá. Estava cansado e, reconheço, com medo. Imaginava o necrotério e o cara do IML abrindo a gaveta, tirando um lençol de cima do corpo e eu olhando para alguém que amo e fazendo o reconhecimento positivo. Nem sei se era a morte que me impressionava ou as vidas que ficariam aqui para chorá-la, ou, ainda, toda a morbidez de uma situação pesada como deve ser esta.

Tentei outras maneiras de me certificar. Todas falharam.

Chovia. Chovia não, garoava. Não me senti apto a dirigir por tudo o que sentia fisicamente e também pelo impacto que teria um eventual reconhecimento positivo sobre minha cabeça. A Cris me levou e, percebendo minha agonia, prontificou-se a entrar e conferir os corpos. Claro que não deixei.

Dezoito horas. Pista molhada, motoristas nervosos com a chuva, trânsito caótico. Menos de cinco quilômetros entre minha casa e o IML tomaram mais de meia hora. No caminho, já conformado para qualquer resultado, minha mente tentava articular todas as hipóteses, inclusive a burocracia toda. E tudo era só uma tentativa de evitar o que poderia ser inevitável.

Chegamos. Não deixei a Cris entrar, ela ficou esperando no estacionamento. Era minha a obrigação de conferir, por isso me ligaram.

É mentira que o tempo não pára! Nessas horas ele pára, se não pára, se arrasta. Entre o “boa-noite” no balcão da recepção e o “pois não” do funcionário com ar de tédio ou de cansaço, corre uma eternidade. Garanto que mundos e mais mundos se criam ou somem do universo naqueles aparentemente exíguos segundos.

- Me informaram que há três corpos de homens não identificados, mortos por questões envolvendo drogas. Tô procurando um de quarenta anos, mais ou menos.

Não sei quanto tempo levei para elaborar aquele período de poucas palavras. Antes me preocupei em demonstrar frieza e segurança, embora me faltassem as duas coisas. Mais dois infinitos minutos. Um funcionário pega uma luva de necropsia e me faz sinal para entrar dizendo “por aqui.” Não tinha mais volta, eu estava prestes a me defrontar com o pavor do choque de, talvez, ver deitado e morto, numa câmara fria, sem qualquer identificação, alguém que conheço e amo.

No CSI é diferente; em filmes é diferente. Além da distância de espectador, há um certo glamour do enredo, funesto é verdade, mas há. A vida não tem glamour e o IML de Curitiba (como qualquer IML destes tristes trópicos) não tem nada de primeiro mundo ou de cinematográfico, só as tampas das gavetas são iguais.

E entrei naquela galeria repleta de gavetões, o cheiro de carne podre tomava conta do lugar. Nem me deram uma máscara pós-transplante de medula óssea, tive que afundar meu nariz na camiseta, que não adiantou nada. O cheiro da morte penetra pelos fios e fica cravado nas narinas. Ela se impõe além da sua definitividade, tira todos os sentidos do morto, claro, mas se apossa petulante dos seus em vida: o frio, no tato; o silêncio ou o ranger da gaveta, na audição; o fedor, no olfato; o gosto amargo, no paladar; e o pavor de corpos amarelados, na visão.

No meio daquela tumba enorme, um corpo jazia sobre uma maca, coberto de papel. Pelo tamanho do braço, já sabia que não era quem eu temia identificar. Quase fiquei aliviado, mas o funcionário, com as luvas calçadas, olhou para mim e preparou-se para abrir uma gaveta:

- Só este ainda não foi identificado, os outros dois já.

Abriu. A primeira coisa que vi foi uma cabeça enfaixada por uma espécie de gaze de segunda. Tive o impulso de fechar os olhos, mas aí tudo seria em vão. Aos centímetros o resto do corpo foi-se revelando. Uma barba mais ou menos comprida me tranqüilizou e tive, enfim, coragem de olhar de verdade. Um peito afundado e esquálido, morto, portanto não arfava. Um estranho. Disse que não era quem eu procurava e recebi um consolo burocrático mas sincero: “Menos mal, né?” O cara ainda me perguntou se eu não queria ver um corpo feminino que estava lá, sem identificação. Quase perguntei o motivo, mas só fiz uma piada mórbida: “Não, obrigado, as viciadas que conheço, que eu saiba, estão em casa.”

Saí e avisei quem eu deveria avisar. Alguém do outro lado da linha respirou em paz.

No caminho de volta para casa, pensei em todas aquelas gavetas, em cada um dos corpos que poderiam estar lá, em cada crônica que cada uma daquelas vidas já esgotadas teria para contar. E me impressionou o corpo que me foi apresentado. Um homem que eu nunca em vida, entrava para a minha história com sua morte e eu nem soube seu nome, óbvio. E passei o resto da noite sentindo que havia invadido a “vida” daquele estranho em seu ato final, um intruso após seu último suspiro.

Porque a vida continua, jantei com a Cris e fumei meu quinto cigarro. Depois de toda aquela morte, de todo aquele dia cheio de tensão, quase agradeci a satisfação daquele momento de vício que pretendo matar, porque naquela hora ele não era um traficante que pretende me pegar, mas um amigo que está indo embora depois de trinta anos, findando, morrendo como aquele corpo anônimo de cabeça enfaixada morreu ou como aquele de quarenta e um que fui procurar.

Depois eu soube que quem eu procurava voltou para casa inteiro. Fechei a gaveta daquele dia quase dando um adeus sincero e sentido ao morto que conheci, como um consolo ao seu frio anonimato, como um carinho a vida dele que se foi sem ao menos o número do RG que o identificou a vida toda.

No outro dia, sem tonturas, fui com a Cris andar no parque, num lugar com pouca gente e muita natureza. Eu precisava inalar ar puro e tirar dos sentidos toda aquela morte.

Vida comprida, hein Rosa?



(05 de abril/2007)
CooJornal no 575


Muller Barone é advogado e escritor.
Curitiba/PR
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