
18/06/2005
Ano 8 - Número 425

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Belvedere Bruno
Belvedere Bruno entrevista Artur da Távola
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Quando convidada a entrevistar Artur da Távola, senti grande satisfação,
principalmente pela oportunidade de mostrar na internet este exemplo de
homem público .
Advogado, jornalista, radialista, escritor e professor, Artur da Távola
sempre teve postura ética admirável, obtendo, assim, o respeito de todos
que acompanham sua brilhante trajetória.
1 -As gerações mais novas não conhecem sua história. Partindo de sua
eleição como deputado constituinte em 1960, aos 24 anos, poderia nos dizer
como isso influenciou a sua vida?
Deveras! Sempre me dividi entre o político e o escritor em um País com
larga faixa de injustiça social. Sofri com essa divisão e sofro até hoje
mas para sintetizar, sinto a política como dever (que cumpri) e a
literatura como vocação, atrás da qual vivo a correr sem a alcançar em
plenitude, jamais.
2- Quando e como Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros tornou-se
Artur da Távola?
Foi durante a ditadura. Voltando prematuramente do exílio, estava já
de volta, quando estourou o golpe dentro do golpe, em 1968. O Diretor do
jornal no qual trabalhava (Samuel Wainer, também cassado politicamente)
aconselhou-me a não mais assinar as matérias com meu nome, Paulo Alberto e
encontrar um pseudônimo. No mesmo instante veio-me à mente, como já
estivesse decidido havia milênios (embora jamais houvesse pensado nisso) o
nome Artur da Távola que grudou tanto em mim que hoje é heterônimo e não
mais pseudônimo.
3 - Qual a grande lição obtida através de seu exílio?
Aprofundar o meu conceito de democracia que me fez sair de um socialismo
um tanto ingênuo e penetrar na social-democracia. O outro sentido foi o de
verificar o quanto amo este País. E o terceiro foi aprender o significado
real da palavra saudade.
4-O senhor atuou no jornalismo televisivo por quase vinte anos. Como
era o processo na época e como vê a televisão nos dias atuais?
A televisão é uma caixa de contrastes. Na parte noticiosa cada vez melhor
como amplitude de cobertura embora a trocar notícia como informação por
notícia como espetáculo ou entretenimento. Aliás vivemos a era do
entretenimento e do espetáculo. Cada vez é menor o espaço para o debate de
idéias. Inclusive na política. Na parte de teledramaturgia é bastante
desenvolvida. Fraca na programação infantil e nos canais de baixa
audiência é uma lamentável exploração do grotesco e de anormal.
5--Sua carreira como cronista em diversos jornais tem sido rica em
termos de produção. Poderia nos dizer quantas crônicas já escreveu?
Cerca de sete mil. Fiz esta conta pelos anos e não uma a uma. Adoro a
crônica como gênero literário e seus não-limites.
6 - Quantos livros já publicou? Por que sendo um autor tão querido, há
tanto tempo não vemos um lançamento seu?
Vinte e dois impressos, e um "e-livro" recentemente lançado. Os 16
anos de parlamento e a política atrapalharam a minha literatura e as
editoras de meus livros mais recentes os distribuíram muito mal. Livro mal
distribuído é livro que não se lê. Por isso tenho me voltado para a
Internet. Pode não ter repercussão intelectual, mas se dissemina, chega
aos jovens e fica para o futuro como ato de gratuidade como o é a vocação
de escrever. Mas de todos modos, livro é sempre livro. Estou com quatro
prontos e ainda não procurei editor.
7- Sendo o rádio uma de suas paixões, pode nos falar sobre os programas
que apresenta direcionados a música clássica?
Rádio é literatura oral que pode ser da melhor qualidade. Amo o rádio.
Escrevo programas de música erudita e de música popular. E eu mesmo os
apresento pois comecei a trabalhar em rádio há 49 anos, tenho prática de
narração e minha voz não é feia. Posso dizer que conheço o ofício. E
ademais levar música ao próximo é levar o bem, a universalidade, a paz, o
consolo, a cultura, Vou arriscar um possível absurdo: o rádio, isto é o
áudio, é a mídia não do passado mas do futuro a partir da miniaturização e
da nanotecnologia.
8 - Tem algum projeto literário em andamento?
Vários. O que me falta é tempo para impulsionar pelo menos cinco
desses projetos, pois tenho que trabalhar para o sustento de minha
família. Em 2004 fez 50 anos que trabalho. Deu-me isso motivo para fundo
agradecimento ao Mistério que nos guia por meio de insondáveis mas
perceptíveis desígnios, e uma felicidade interior que me faz, bem, ilumina
e dá disposição.
9 -Na sua opinião, qual é o legado de sua geração?
Lutar pela democracia no Brasil. Acho que vencemos.
10 - Deixe uma mensagem aos leitores.
Não peça opiniões acerca do que escreve. A angústia sobre o próprio
trabalho é a matéria prima do mesmo. Só ela o impulsiona. Consultar é
desorientar a bússola do "si mesmo" (o "self" Junguiano), essa instância
única e original que levamos dentro. Em vez de consultar alguém sobre o
seu valor, leia, leia muito. Aprenderá por si mesmo, conseguindo assim ter
um estilo, que é, de tudo, o mais difícil. Sugiro também fugir dos
adjetivos, dos chavões e do excesso de "que" e de "eu" nos textos.
(18 de junho/2005)
CooJornal no 425
Belvedere Bruno é cronista
Niterói - RJ
belbruno@oi.com.br
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